Segundo o psicanalista suíço Carl Gustav Jung, sincronicidade ou sincronia é algum tipo de coincidência (ou coincidências) que envolve duas pessoas, como a ocorrência de um mesmo evento a ambas, simultaneamente ou não, sem que haja uma relação causal aparente e sem que as pessoas envolvidas tenham consciência disso. Para Jung, por terem um significado relevante para as pessoas envolvidas, esses eventos não seriam fruto de mero acaso, mas o resultado de uma conexão entre indivíduos fisicamente distantes num nível hiperprofundo da realidade psíquica. Por exemplo, quando uma pessoa, sem razão aparente, se lembra de alguém a quem não vê há muito tempo e, minutos depois, o telefone toca, e é exatamente essa pessoa que está do outro lado da linha. Jung chamou esse nível hiperprofundo do psiquismo de inconsciente coletivo.
Poderíamos definir a sincronicidade como uma coincidência não casual, mas cuja causa é desconhecida ou não pode, nas condições atuais do conhecimento científico, ser explicada. Estudos mais recentes sugerem que essas coincidências possam ser explicadas pela física quântica (alguns físicos falam em entrelaçamento ou ação não local). Haveria, portanto, uma convergência entre a teoria junguiana e os fenômenos quânticos. Alguns, porém, preferem atribuir essas sincronias ao mero acaso ou à apofenia, tendência a reconhecer padrões onde eles não existem. (Confira os links Apofenia, Apophenia e Processos, Metodologias e o Cérebro Humano.)
O problema é que, como essas coincidências, por mais significativas que sejam, costumam ocorrer raramente e envolver apenas duas pessoas (em alguns casos, apenas uma), é difícil saber se se trata de um fenômeno regido por alguma lei física ou psíquica até agora desconhecida ou se tudo não passa de casualidade.
Evidentemente, à medida que as coincidências se acumulam, a tese de que se trate de acontecimentos fortuitos perde força. Por exemplo, é possível encontrar um número considerável de analogias entre as biografias de Isaac Newton e Albert Einstein (além do simples fato de terem sido os dois maiores gênios da física), ou entre as de Elvis Presley e Michael Jackson (os dois maiores ídolos pop da história), Beatles e Bee Gees (as duas maiores bandas de pop rock de todos os tempos) ou ainda — o caso mais clássico e propalado — Abraham Lincoln e John Kennedy, os dois mais ilustres presidentes americanos. (Veja a esse respeito A coincidência Lincoln-Kennedy e outras “coincidências”.)
Observação: oportunamente, demonstraremos as sincronicidades nas biografias das pessoas acima mencionadas. |
Ainda assim, estamos colecionando fatos das trajetórias de pessoas ou pequenos grupos de pessoas cuja similaridade ou não é objeto de um julgamento subjetivo, e a impossibilidade de prever novas ocorrências inviabilizaria qualquer experimento científico que tentasse comprovar a tese.
No entanto, quando determinadas coincidências se repetem muitas e muitas vezes, envolvem não apenas pessoas ou pequenos grupos, mas nações inteiras, formadas por milhões de indivíduos, de ambos os lados do Oceano Atlântico, e vêm ocorrendo há pelo menos dois mil anos, começa a ficar evidente que há algo aí que não pode resultar de circunstâncias puramente fortuitas. Nesse caso, não teríamos apenas sincronicidade, mas uma “supersincronicidade”.
Este portal pretende provar a você que as nações e povos que formam a Civilização Ocidental (isto é, os latinos, falantes das línguas românicas, e os saxões, falantes das línguas germânicas, tanto da Europa quanto das Américas) apresentam entre si tantas semelhanças, analogias, simetrias, espelhamentos (ou outro nome qualquer que se queira dar[1]) em sua história, geografia, línguas, culturas e demais fatos sociais, por tão longo período e de maneira às vezes tão matematicamente precisa que é praticamente impossível que tudo seja apenas obra do acaso.
Tomando emprestado o termo de Jung — mas sem necessariamente atribuir a origem dos fenômenos aqui descritos ao inconsciente coletivo, à dimensão quântica da realidade ou a qualquer outra explicação puramente especulativa —, eu diria que, assim como pode haver sincronicidades entre pessoas, pode haver também entre grupos de pessoas, incluindo povos e nações. É o que estou chamando de “sincronicidade em escala global” ou “supersincronicidade”.
Mas por que isso estaria ocorrendo na Europa Ocidental e em suas ex-colônias e não em outra região qualquer do planeta? Por que apenas essas duas famílias étnico-linguísticas estariam unidas (entrelaçadas, em termos quânticos) e não outras?
Se a sincronicidade é algo cuja ocorrência é exceção e não regra, isso talvez explique por que ela vem ocorrendo há tanto tempo na Civilização Ocidental e não em outras civilizações. Se há de fato um paralelismo nas vidas de Lincoln e Kennedy, por que nada de semelhante ocorreu entre outros dois presidentes americanos quaisquer? A razão pode ser exatamente a natureza quântica do fenômeno: de todas as partículas que compõem o Universo, apenas algumas se entrelaçam e passam a sofrer fenômenos não locais (isto é, cuja simultaneidade e similaridade não dependem de uma conexão física detectável). O fato é que estamos todos inseridos nessa rede de simetrias. E, conforme espero conseguir provar, nada disso é casual.
A tese que defendo é a de que os países e povos latinos têm, cada um, um correspondente germânico que é seu “espelho”. (Embora o número de Estados independentes seja diferente em cada família, se considerarmos regiões autônomas ou que já foram independentes no passado, enfim, regiões etnicamente distintas, encontraremos uma correspondência ponto a ponto.) Os inúmeros fatos aqui apresentados procurarão mostrar que há fortes conexões entre França e Inglaterra, Itália e Alemanha, países ibéricos e escandinavos, Romênia e Islândia, Brasil e Estados Unidos, Argentina e Canadá…, como se cada um desses países fosse a imagem no espelho do seu correspondente. Essas conexões se revelam sobretudo em eventos que fazem a história desses países seguir caminhos paralelos, bem como em fatos linguísticos — fonéticos, ortográficos, léxicos e gramaticais — que tornam a língua inglesa a imagem especular do francês, o italiano o reflexo do alemão, e assim por diante. Mas também acidentes geográficos — alguns produzidos pelo homem, como cidades, outros anteriores à existência humana, como ilhas, montanhas e penínsulas — refletem essas conexões, como se povos-espelho tivessem sido guiados a ocupar territórios que já tinham conexões entre si.
Finalmente, essas inter-relações se estendem aos mais diversos fenômenos culturais, como movimentos artísticos e intelectuais, marcas de produtos, cores de bandeiras, brasões, hinos, uniformes esportivos e tantos outros que tentarei expor aqui.
A grande pergunta é: por que esse fenômeno acontece? E por que só acontece no Ocidente? É uma lei da natureza ou apenas uma sucessão de coincidências? Mas, se é uma lei, por que não a encontramos em outras partes do mundo? Será que apenas o mundo ocidental teria reunido as condições ideais para a sua ocorrência? Essa não é uma hipótese de todo implausível, afinal o próprio surgimento da vida é um exemplo disso: embora possa, em tese, ocorrer em qualquer parte do Universo, nosso planeta é, até o momento, o único que conhecemos a abrigar vida, e isso se dá exatamente graças a uma raríssima conjunção de circunstâncias favoráveis.
Na verdade, se pesquisarmos bem, encontraremos sincronicidades envolvendo não apenas a história de nações contemporâneas, mas também a de povos separados por centenas de anos. Embora a palavra sincronicidade signifique etimologicamente “simultaneidade”, fatos supersincrônicos podem estar separados por décadas ou séculos. Como mencionei anteriormente, também é possível achar analogias na biografia de personalidades famosas (e provavelmente também na de pessoas comuns, embora neste caso seja bem mais difícil investigar), na trajetória de grupos de pessoas, como instituições, organizações e empresas — e países nada mais são do que grandes grupos de pessoas —, em movimentos políticos ou artísticos, em bandas de rock, no desenrolar de períodos históricos distintos e, de um modo geral, em tudo o que se refere à existência humana. Essas analogias dão margem a uma série de especulações e de explicações não provadas cientificamente, como a de que espíritos reencarnam ou de que a história se repete (o historiador italiano Giambattista Vico já demonstrava que a história se repete em ciclos, o que as filosofias orientais também afirmam). Aliás, a hipótese da supersincronicidade converge não só com certos postulados da física quântica como também do budismo, do taoismo, etc.
De qualquer modo, a supersincronicidade não afeta toda e qualquer pessoa ou grupo humano, mas apenas certos pares de pessoas ou grupos humanos que, suponho, reúnam as condições ideais para a ocorrência do fenômeno. E, como disse, a sincronicidade é diferente da simples coincidência, pois eventos similares ocorrem de modo fortuito na vida de todas as pessoas. Mesmo as coincidências significativas de Jung são bem raras. Já a supersincronicidade é um conjunto de coincidências grande demais para ser simplesmente casual, especialmente porque é possível reconhecer nela uma lógica oculta. Uma lógica que, lida corretamente, pode tornar o fenômeno previsível, ainda que, comparando a história de pessoas ou grupos supostamente sincrônicos, encontremos sempre mais diferenças do que semelhanças. Se não fosse assim, teríamos uma quase identidade. Se não fosse assim, esse espelho não seria “invisível”, mas já teria sido revelado há muito tempo. Parece haver, por parte da natureza ou do que quer que cause o fenômeno, uma certa sutileza que precisa ser compreendida para ser desvendada. Meu desafio aqui é convencer você, leitor, de que o espelho existe de fato e, embora invisível, projeta em nosso mundo imagens que podem ser vistas por qualquer um que saiba olhar.
O reconhecimento de que sincronicidades ocorrem em todos os domínios da existência humana conduz a três conclusões:
a) que uma suposta ciência das sincronicidades (sincronística ou sincronologia) não deixa de ser uma pesquisa sobre padrões matemáticos existentes na natureza;
b) que esses padrões nunca se repetem exatamente da mesma maneira porque as condições em que ocorrem nunca são totalmente idênticas;
c) que as sincronicidades são raras porque precisam de condições “ideais” para ocorrer.
Este portal pretende, enfim, mostrar que a enorme quantidade de similaridades geográficas, históricas, linguísticas, sociais e culturais entre os povos latinos e os germânicos nos permite tratá-los como se fossem o espelho um do outro. Embora uma explicação cem por cento científica ainda não esteja disponível, tais coincidências devem-se seguramente a algum fator racionalmente explicável e não ao capricho de forças sobrenaturais. Aliás, o ser humano tem uma forte tendência a recorrer ao sobrenatural sempre que não consegue explicar racionalmente certos fenômenos. No entanto, a experiência mostra que, com o passar do tempo, a explicação racional acaba surgindo, e o que parecia sobrenatural revela-se apenas mais uma lei da natureza. Portanto, este não é um portal de misticismo e sim de ciência (ou de um projeto de ciência). Se não é possível, por enquanto, saber por que esse espelhamento ocorre, é imperativo demonstrar que ocorre — e de que maneira ocorre. Como diria Isaac Newton sobre o porquê da existência da gravidade: hypotheses non fingo, “não avento nenhuma hipótese”. Afinal, a ciência não se faz apenas com teorias, mas também — e principalmente — com a coleta de dados, a fenomenologia. É a análise desses dados que conduz à elaboração das teorias. O simples fato de haver um “espelho” refletindo acontecimentos históricos, acidentes geográficos, palavras e estruturas linguísticas, além de outros fenômenos humanos, e, mais ainda, de ter permanecido invisível durante tanto tempo, embora tenha estado sempre à vista de todos, já justifica este estudo. Como você verá, são tantas as evidências disso que é impossível continuar a ignorá-las.
No entanto, se lhe parecer que tudo não passa de mero acaso e que a supersincronicidade é uma pseudociência ou mero entretenimento, tudo bem: de todo modo, bom divertimento!
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[1] Utilizo neste portal os termos sincronicidade, supersincronicidade, sincronia, especularidade, espelhamento, simetria, analogia e paralelismo como sinônimos. A razão é simples: evitar a repetição enfadonha dos mesmos termos, já que o conceito que eles representam é frequentemente mencionado em todos os textos do portal.