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LATINOS E SAXÔNICOS: OPOSTOS QUE SE ATRAEM E SE COMPLEMENTAM

Como no I Ching, na supersincronicidade não há bom ou mau, positivo ou negativo,
mas uma complementaridade entre opostos.

Quando olhamos para o norte e o sul da Europa, isto é, para as nações teutônicas e as latinas, nossa tendência inicial é ver apenas diferenças, ou mais até: contrastes gritantes. O mesmo vale quando olhamos para as Américas do Norte e do Sul.

De fato, uma série de características físicas, históricas, culturais e comportamentais fazem o senso comum opor um universo ao outro, olhando, não raro, essa diversidade através de uma lente de preconceito, que contraporia superioridade e inferioridade, ordem e caos, trabalho e ócio, e assim por diante.

Para começar, os povos latinos são predominantemente formados de indivíduos morenos de média a baixa estatura, geneticamente pertencentes ao subgrupo mediterrâneo da raça branca ou caucasiana, em que dominam olhos e cabelos castanhos. Já os povos germânicos seriam majoritariamente formados de indivíduos louros de olhos claros, igualmente brancos caucasianos, porém do subgrupo nórdico. Essa primeira impressão étnica pode até ser comprovada estatisticamente, mas o fato é que a raça branca ou caucasiana tem esse nome porque dados antropológicos e paleogenéticos atestam que teria sido o Cáucaso o local de origem da raça, e lá mesmo, onde hoje se situam países como Armênia, Geórgia e Afeganistão, é possível encontrar pessoas brancas autóctones (isto é, não descendentes de imigrantes) com os mais diversos tons de cabelos e olhos. Na própria Europa, louros, ruivos, castanhos e morenos se encontram em todas as nações, da Noruega à ilha de Malta, de Portugal à Rússia.

Mas o senso comum também costuma atribuir aos latinos um caráter mais emocional, anárquico e, ao mesmo tempo, caloroso e acolhedor, assim como atribui aos germanos uma índole mais racional, rígida, um temperamento mais frio e distante. É evidente que há muito de estereótipo nessas descrições, e vamos encontrar muitíssimas exceções. Mas lembre-se de que estamos falando de senso comum e não de dados científicos.

Atualmente, a maioria dos estados europeus de etnia latina ou preponderantemente latina é constituída de repúblicas; as duas grandes exceções são o reino da Espanha e a Santa Sé (sim, o estado pontifício também é uma monarquia, cujo soberano absoluto é o papa). Já entre as nações germânicas, a maioria é de monarquias: as exceções ficam por conta da Alemanha, Áustria e Islândia.

No passado, uma nação românica, a França, constituiu a mais importante, influente e poderosa monarquia europeia. No entanto, foi justamente a França o berço do modelo democrático e republicano moderno, ao abolir a monarquia em 1870. Desde então, a França é o maior exemplo de nação republicana, nela tendo-se inspirado até mesmo repúblicas bem mais influentes hoje em dia, como os Estados Unidos da América, por exemplo. Em contrapartida, a Grã-Bretanha é hoje o mais célebre exemplo de monarquia constitucional e democrática.

Nesse sentido, a França também tem sido sempre o berço dos ideais políticos progressistas e é vista por muitos como um país fortemente “de esquerda” (não confundir com socialista ou comunista!). Na contramão, a Inglaterra é sempre vista como uma sociedade conservadora, classista e apegada às tradições — numa palavra, um país “de direita”, pátria do liberalismo econômico. Não à toa, a França fez a Revolução Francesa, que derrubou a monarquia absolutista, ao passo que a Inglaterra produziu a Revolução Industrial, origem do capitalismo moderno.

Esse traço predominantemente revolucionário e republicano parece refletir-se até nos hinos nacionais dos países latinos tanto da Europa quanto da América, que são quase sempre marchas militares vivas e festivas, em ritmo de allegro ou presto. Enquanto isso, os hinos dos estados saxônicos europeus e americanos são quase sempre lentos e solenes, em ritmo de adagio ou largo, como convém a uma nação de súditos que reverenciam seu soberano.

Historicamente, os povos latinos ou românicos são assim chamados porque descendem dos antigos romanos, falantes do latim, povo que constituiu o maior império da Antiguidade e modelo de todos os impérios modernos. Os latinos são, portanto, herdeiros diretos do patrimônio cultural greco-romano, que é a base da Civilização Ocidental. Por outro lado, os povos germânicos descendem dos antigos germanos ou bárbaros, assim chamados pelos romanos por serem vistos como povos culturalmente inferiores, uma horda de guerreiros invasores desprovidos de civilização.

Muito dessa visão é equivocado, pois, na verdade, os bárbaros germanos foram inicialmente infiltrando-se pouco a pouco no Império Romano e sendo assimilados pelo povo romano, adotando até mesmo a língua latina. As invasões militares que acabaram pondo fim ao Império só ocorreram séculos depois. Portanto, o povo europeu atual — excetuados, é claro, os imigrantes africanos, asiáticos e latino-americanos chegados a partir do século XX e seus descendentes — são o resultado da miscigenação de nórdicos e mediterrâneos, romanos e germanos, gregos, eslavos, árabes e judeus.

Entretanto, ainda em termos do senso comum, os herdeiros diretos da progressista Roma antiga, os latinos, são vistos como majoritariamente subdesenvolvidos, ao passo que os antigos bárbaros são hoje superdesenvolvidos; basta comparar Estados Unidos e Brasil, Noruega e Portugal. Mais uma vez, esse ponto de vista é relativo, já que França e Itália estão entre os países mais ricos e desenvolvidos do mundo, assim como o Brasil é uma das dez maiores economias mundiais, ao mesmo tempo que países pobres como a Jamaica e a Guiana foram colônias britânicas e falam inglês.

Mas essa visão de um norte adiantado e um sul atrasado tem sua razão de ser, que se encontra na História. Com efeito, na Idade Média, todos os europeus ocidentais, isto é, latinos e saxônicos, eram católicos, e o conceito de nação era muito incipiente em face da noção extremamente mais forte de cristandade. Mesmo assim, já se podiam notar alguns traços que definiriam os destinos desses povos. As principais universidades europeias situavam-se naquilo que chamo aqui neste portal de nações centrais: França, Inglaterra, Itália e Alemanha. Das sete artes liberais ensinadas nesses centros de estudo, as universidades francesas e italianas (Paris, Bolonha) enfatizavam mais o ensino do Trivium (lógica, gramática e retórica), ao passo que as inglesas e alemãs (Oxford, Heidelberg) se especializaram no Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). Ou seja, transpondo para a universidade moderna, pode-se dizer que os povos latinos se dedicaram mais às artes e humanidades, e os saxônicos às ciências naturais. Não por acaso, a França é, por excelência, o país dos intelectuais (filósofos, sociólogos, cientistas políticos), enquanto Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos são o território dos grandes cientistas e da alta tecnologia.

Essa vocação definida ainda na Idade Média fez os países românicos liderarem por muitos séculos o campo das artes (Renascimento italiano, arte moderna e moda francesas, culinárias francesa e italiana), de tal modo que, até hoje, o patrimônio artístico da Itália, França e Espanha é superior em qualidade ao de países como Inglaterra, Alemanha e Suécia, por exemplo. Em compensação, foram os países germânicos os primeiros a se industrializar e a assumir, portanto, a liderança em matéria de produção científica e tecnológica.

Mas a desigualdade cultural e econômica também teve outra raiz, igualmente situada na Idade Média: foi na Alemanha que nasceu o protestantismo e, por razões que pouco ou nada têm a ver com língua ou etnia (mas que não deixam de ser significativas em termos de simetria), foi nos países germânicos que essa nova confissão religiosa floresceu, praticamente banindo o catolicismo. Na verdade, o único país saxônico a permanecer católico foi a Áustria. Por sua vez, o mundo latino permaneceu católico e exerceu forte oposição ao avanço do protestantismo. A única nação latina não majoritariamente católica é a Romênia, que, por estar situada no Leste europeu, aderiu de imediato ao Cisma do Oriente, tornando-se ortodoxa.

O fato é que o protestantismo é uma doutrina que acredita na salvação pelas obras e, portanto, valoriza o trabalho, o estudo, o empreendimento. Já o catolicismo, por meio da Inquisição, sempre obstaculizou o progresso, perseguiu os livre-pensadores e viu com desconfiança o conhecimento laico. (Leia a esse respeito, o livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber.)

Por serem nações centrais em termos políticos, econômicos e culturais, a França e a Itália, mesmo sendo esta última a sede do catolicismo, assistiram ao avanço intelectual e ao enfraquecimento progressivo do poder da Igreja em detrimento da burguesia, o que favoreceu o progresso das artes e das ciências. Já a Península Ibérica foi a região em que por mais tempo perdurou a Inquisição. Somado à sua posição geográfica e política periférica, não é de estranhar que tenha sido por muito tempo a região mais atrasada da Europa. Em compensação, a Escandinávia, por ter sido muito tardiamente cristianizada, foi a região em que a Igreja Católica menos fincou raízes; por isso mesmo, foi a região de mais fácil penetração das ideias protestantes e de menor conflito entre estes e os católicos, tornando-se com o tempo, a região mais desenvolvida da Europa (e do mundo!). Basta dizer que, em pleno século XVIII, já não havia mais analfabetismo nesses países.

Consequência ou talvez causa dessa diferença cultural e econômica, a Ibéria ainda é uma das regiões europeias de maior religiosidade, ao passo que a Escandinava é onde se encontra a maior proporção de ateus.

Oposições e complementaridades entre as línguas românicas e as germânicas

 

Também entre as línguas românicas e as germânicas se encontra uma série de aspectos que as opõem como água e vinho. Mas, como no I Ching, em que as forças yin e yang ao mesmo tempo se opõem e se complementam, as diferenças fundamentais entre as línguas neolatinas e as saxônicas, longe de criar um abismo entre elas, é o que as une. Se considerarmos que elas já têm uma origem comum, que é a ascendência indo-europeia, só haveria três tipos de possibilidades evolutivas: 1) ambos os grupos manteriam os mesmos traços fonéticos, gramaticais, léxicos, etc., acabando por não se individualizar como duas famílias linguísticas, mas como dois ramos de uma mesma família, tal como ocorre entre as línguas bálticas (letão, lituano) e as eslavas (russo, polonês, etc.); 2) os dois grupos evoluiriam de maneira totalmente errática, de modo a formar duas famílias com alguns traços em comum e outros distintos, como ocorre, por exemplo, entre celtas e gregos, armênios e albaneses; ou 3) as duas famílias adquiririam com o tempo traços exatamente opostos, de modo a formar uma imagem em negativo uma da outra. Foi precisamente essa terceira possibilidade o que ocorreu. Por isso, as metáforas do negativo fotográfico ou da imagem refletida no espelho são tão recorrentes neste portal.

Aspectos fonéticos

As línguas românicas se caracterizam por uma propalada simplicidade fonética (pelo menos à primeira vista): menor número de fonemas (25 em espanhol contra 41 em sueco, por exemplo), encontros consonantais mais simples e menos frequentes em contraponto à riqueza de encontros vocálicos, predomínio de palavras terminadas em vogal (fato devido à perda das consoantes finais do latim na passagem às línguas românicas) ou em consoantes “brandas” (l, n, r, s). Em contrapartida, as línguas germânicas são célebres por sua complexidade fonética: maior número de fonemas, encontros de muitas consoantes, principalmente em palavras compostas (por exemplo, al. Selbstmord), predomínio de palavras terminadas em consoante, especialmente consoantes “duras” (p, t, k, f), graças à perda das vogais finais do germânico primitivo na passagem às línguas germânicas.

As línguas românicas também têm uma tendência a sonorizar e desaspirar consoantes (por exemplo, lat. /p/, /t/, /k/ > port. /b/, /d/, /g/, emudecimento do h aspirado latino), de que resultaria uma pronúncia “relaxada”, ao passo que as línguas germânicas têm a tendência oposta, isto é, ensurdecer e aspirar as consoantes (germ. /b/, /d/, /g/ > al. /p/, /t/, /k/, manutenção do h aspirado germânico) de que resulta uma pronúncia “tensa”. Apenas para citar um exemplo, muitos italianos no Brasil pronunciam casa como gasa, enquanto os alemães pronunciam gato como cato. Nas línguas germânicas, as consoantes p, t e k são aspiradas (em algumas línguas, como o dinamarquês e o norueguês, a oposição fonológica não é entre consoantes surdas ([p], [t], [k]) e sonoras ([b], [d], [g]) e sim entre surdas aspiradas ([ph], [th], [kh]) e surdas não aspiradas ([p], [t], [k]).

A fonética protorromânica (isto é, latina) era conservadora em relação ao indo-europeu, já que conservou tanto o consonantismo quanto o vocalismo indo-europeus. Já a fonética protogermânica (do germânico primitivo) foi inovadora em relação ao indo-europeu, pois transformou tanto as consoantes, no processo histórico conhecido como Primeira Mutação Consonântica ou Erste Lautverschiebung, quanto parte das vogais. O quadro a seguir, em que as mutações estão em negrito, tornará mais claros esses processos.

Se o latim foi conservador e o germânico inovador em relação ao indo-europeu, na passagem do latim às línguas românicas e do germânico às línguas germânicas ocorreu o inverso: as línguas latinas, com exceção do italiano e do romeno, alteraram as consoantes do latim, ao passo que as línguas saxônicas, com exceção do alemão e do dinamarquês, conservaram as consoantes do germânico. Por exemplo, o lat. jocare, “jogar”, deu jouer em francês e jogar em português, mas deu giocare em italiano e juca em romeno. Já o germ. *jukan, “jugo”, deu yoke em inglês e åk em norueguês, mas Joch em alemão e åg em dinamarquês.

Tanto as línguas românicas quanto as germânicas sofreram um processo fonético muito comum em todas as línguas, que é a palatalização de um fonema quando este é seguido de i vocálico ou semivocálico (isto é, /i/ ou /j/). Só que, no caso das românicas, o que se palatalizou foi a consoante anterior, gerando sons característicos dessas línguas como o lh e o nh do português. Já nas germânicas, houve a palatalização das vogais, fenômeno chamado Umlaut, de que resultaram os sons do ö e do ü alemães. Ou seja, nas línguas românicas tivemos as seguintes mutações: /k/ + /j/ > /tʃ/, /g/ + /j/ > /dʒ/, /t/ + /j/ > /ts/, /d/ + /j/ > /dz/, /l/ + /j/ > /ʎ/, /n/ + /j/ > /ɲ/. Nas germânicas, tivemos: /a/ + /j/ > /e/, /e/ + /j/ > /i/, /o/ + /j/ > /ø/, /u/ + /j/ > /y/.[1]

Nas línguas latinas, o encontro vocálico de um i ou u com vogal resulta num ditongo, enquanto nas saxônicas, resulta em hiato. É por isso que o português separa as sílabas do nome da Índia como Ín-dia e o inglês como In-di-a.

Quanto à posição do acento tônico, originalmente tanto o germânico quanto o latim o colocavam sempre no início da palavra, ou seja, a sílaba tônica era sempre a primeira. Posteriormente, enquanto o germânico manteve essa regra, o latim passou a deslocar o acento para a penúltima ou a antepenúltima sílaba. Com isso, as línguas germânicas têm até hoje uma tendência protônica, isto é, de pôr a tonicidade no início da palavra (por exemplo, ing. every); em palavras compostas, o acento sempre cai no primeiro elemento: ing. ghostwriter. Já as línguas românicas têm tendência metatônica, de colocação do acento no fim da palavra, como no port. futebol); em palavras compostas, o acento cai sempre no segundo elemento: port. guarda-chuva.

Consequência dessa regra, nas línguas neolatinas os sufixos costumam ser tônicos e os prefixos átonos; nas saxônicas, os sufixos são átonos e os prefixos quase sempre tônicos.

Aspectos gramaticais

Se as línguas românicas têm fonética simples, em compensação sua gramática é complexa, ao passo que as línguas germânicas têm uma fonética mais complexa, mas sua gramática é bem mais simples. E, tanto no âmbito das línguas românicas quanto no das germânicas, a complexidade é maior na periferia do sistema. A gramática é mais complexa na Ibéria e na Romênia, e a fonética é mais desafiadora na Escandinávia e na Islândia.

O português, por exemplo, tem três conjugações verbais (a maioria das línguas românicas tem quatro) e 10 combinações de tempos e modos, sendo que os verbos se conjugam em três pessoas e dois números. Os adjetivos se flexionam em dois gêneros e dois números, e os pronomes pessoais oblíquos admitem três colocações: prótese, mesóclise e ênclise. Já os verbos em norueguês não têm conjugações, têm apenas três combinações de tempo e modo, e não se flexionam nem em número nem em pessoa. Os adjetivos têm três gêneros no singular e nenhum no plural (em inglês então, não têm nem gênero nem número), e os pronomes oblíquos são sempre enclíticos. Simples, não?

Mesmo o alemão, que tem fama de ter uma gramática difícil, é mais fácil que o português — basta comparar a espessura de uma gramática alemã com a de uma portuguesa!

Em compensação, as línguas escandinavas têm vogais longas e breves, consoantes simples e duplas, diferentes tons que distinguem significado, oposição entre consoantes aspiradas e não aspiradas, além de sons pouco comuns a outras línguas europeias.

Morfologicamente, as línguas românicas preferem formar palavras por derivação (adição de prefixos ou sufixos). Por exemplo, port. leite + ‑eiro = leiteiro, café + ‑t‑ + ‑eira = cafeteira. Já as línguas germânicas preferem a composição (justaposição de palavras): ing. milk + man = milkman, coffee + pot = coffepot, e assim por diante.

Na sintaxe, as línguas latinas preferem a construção do tipo base + adjunto (ou determinado + determinante). Por exemplo, primeiro o substantivo, depois o adjetivo ou adjunto adnominal: port. dia chuvoso, professor de inglês. As germânicas preferem a sequência adjunto + base (ou determinante + determinado): ing. rainy day, English teacher. Da mesma forma, numa oração negativa com pronome oblíquo, as línguas latinas colocam o advérbio “não” e o pronome oblíquo antes do verbo (port. Ela não me viu), ao passo que as germânicas os colocam depois do verbo e na ordem inversa (al. Sie sah mich nicht).

Por outro lado, as línguas neolatinas desfrutam de uma grande flexibilidade sintática, ao contrário da rigidez das línguas saxônicas. Em português, posso dizer indiferentemente O livro que eu tanto queria finalmente chegou, Chegou finalmente o livro que eu queria tanto, Finalmente chegou o livro que tanto eu queria, etc. Em inglês, The book that I wanted so much finally arrived é praticamente a única possibilidade de construção.

Por fim, os comparativos e superlativos são formados quase na totalidade dos casos de modo analítico nos idiomas românicos (port. sábio, mais sábio, o mais sábio); nos germânicos, predomina a formação sintética: ing. wise, wiser, the wisest.

Aspectos lexicais

Tanto o latim quanto o germânico eram línguas em que os nomes (isto é, substantivos, adjetivos, pronomes, etc.) eram flexionados em casos. O latim tinha seis casos: nominativo (indicativo do sujeito), vocativo (indicativo do próprio vocativo), acusativo (objeto direto), dativo (objeto indireto), ablativo (adjunto adverbial) e genitivo (adjunto adnominal). O germânico tinha quatro: nominativo, acusativo, dativo e genitivo. Os nomes, tanto próprios quanto comuns, passaram do latim às línguas românicas no caso acusativo (esta é, por sinal, uma das razões de o acento tônico geralmente cair no final das palavras); do germânico, passaram às línguas germânicas no caso nominativo. Isso tem algumas implicações até mesmo em nomes que não foram herdados diretamente, mas chegaram por empréstimo. Por exemplo, o nome latino de origem hebraica equivalente a “Miguel” era Michael (acento no i) no caso nominativo e Michaelem (acento no primeiro e) no acusativo. O nominativo Michael passou nessa mesma forma e acentuação para o inglês e o alemão, mas deu Michele em italiano e Michel em francês porque veio do acusativo Michaelem. Essa tem sido uma tendência geral a distinguir as duas famílias linguísticas.

Além disso, praticamente todo o léxico das línguas românicas é de origem latina, seja por herança ou empréstimo (apenas o romeno, por razões históricas, tem grande parte de seu léxico proveniente das línguas do Leste europeu). Enquanto isso, a maior parte do léxico das línguas germânicas é de origem germânica, seja por herança direta, seja por decalque, isto é, por tradução dos morfemas das palavras latinas por equivalentes germânicos. Apenas o inglês, também por razões históricas, tem uma quantidade de palavras de origem latina muito superior à de suas línguas-irmãs.

[1] O romeno é a única língua românica a ter Umlaut. Em compensação, o holandês é a única língua germânica a não tê-lo.

Um último fato curioso: pela queda das sílabas postônicas na passagem do latim ao francês, quase todas as palavras francesas são oxítonas; já no italiano, pela manutenção da vogal final latina, quase todas as palavras terminam em vogal e poucas são oxítonas, sendo muitas proparoxítonas. No inglês, pela perda das desinências das palavras na passagem do inglês médio para o moderno, muitas palavras se tornaram monossílabas ou, pelo menos, curtas; inversamente, no alemão, a justaposição de palavras nos compostos produz muitas palavras longas e até quilométricas, como Rechtsschutzversicherungsgesellschaften.

 

Conclusão: o yin e o yang

Como disse no início deste artigo, todas essas diferenças de comportamento entre ambas as famílias de povos e de línguas, longe de representar a total ausência de relação, como supõe o senso comum, apoiado como sempre numa análise superficial e pouco embasada, representam, ao contrário, a própria base da noção de espelhamento. Em outras palavras, é a partir de todas essas diferenças sistemáticas que se estabelecem, em todos os setores da vida desses povos (históricos, geográficos, linguísticos, sociais, culturais), as sincronicidades objeto deste portal, pois entre duas fotos simplesmente diferentes — digamos, a de um cavalo e a de uma árvore — não conseguimos estabelecer conexão alguma, assim como entre duas fotos absolutamente iguais (isto é, duas cópias da mesma foto) a identidade ponto a ponto nada significa: a conexão é total, mas é trivial, já que ambas as provas vieram do mesmo negativo. Já a sobreposição de uma foto e de seu negativo produz o que os ingleses chamam de match: coincidência ponto a ponto entre dois objetos que não sabíamos relacionados até fazermos a sobreposição.

Entre celtas e eslavos, ou entre chineses e afegãos, temos uma situação como a das fotos do cavalo e da árvore; entre celtas e celtas, ou entre chineses e chineses, temos a identidade no sentido matemático do termo (A = A, B = B, etc.). Já entre os latinos e os germanos, temos a foto e seu negativo, o objeto e seu reflexo no espelho.

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