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ALGUMAS EVIDÊNCIAS HISTÓRICAS DA SUPERSINCRONICIDADE – FRANÇA E REINO UNIDO

Raízes históricas da supersincronicidade na Europa

A cultura ocidental nasceu na Grécia, mas foi somente quando os romanos a incorporaram, transformando-a numa cultura verdadeiramente “greco-romana” que ela se espalhou pela Europa. A seguir, somaram-se a essa cultura as contribuições da cultura judaica, através do Cristianismo. Portanto, o mundo dominado por Roma era greco-romano-judaico-cristão.

Paralelamente, do outro lado das fronteiras romanas estavam os povos bárbaros, especialmente os celtas e germanos, que, devido à longa convivência (e à longa luta contra os romanos) também misturaram suas culturas de tal modo que se pode falar de uma única cultura celto-germânica. Aliás, uma das possíveis etimologias para o nome Germanus seria “povo irmão (dos celtas)”.

Em 395 d.C., o Império Romano foi dividido em dois: o Império do Ocidente permaneceu sob a influência da Igreja de Roma e de sua língua, o latim, enquanto o Império do Oriente (ou Bizantino) foi dominado pela Igreja de Constantinopla e manteve uma cultura predominantemente grega. O Império Bizantino e sua Igreja influenciaram profundamente o Leste Europeu (por exemplo, o alfabeto cirílico utilizado pelos eslavos é uma derivação do alfabeto grego), mas não teve qualquer influência no Ocidente.

A Civilização Ocidental se inicia propriamente quando os bárbaros germânicos começam a invadir o Império do Ocidente, primeiro pacificamente, a seguir por força das armas, premidos pela invasão dos hunos, vindos da Ásia, sob o comando de Átila (Travessia do Reno, 406 d.C.).

O Império Romano do Ocidente é destruído em 476, dando lugar a um sem-número de reinos efêmeros com uma população étnica e linguisticamente resultante da miscigenação de romanos e germanos. Se de um lado os germanos adotaram o Cristianismo e o alfabeto latino, os romanos adotaram uma série de práticas jurídicas, políticas e culturais germânicas (direito consuetudinário, feudalismo, nobreza, vassalagem, cavalaria, amor cortês, monarquia eletiva, etc.). Em alguns territórios, os germanos invasores adotaram as línguas românicas (chamadas de romances) ali faladas, mas impondo a elas a influência de suas próprias línguas; em outros territórios (em geral, aqueles que não faziam parte do Império Romano), mantiveram seus dialetos originais (que em trabalhos específicos de linguística chamo de germances).

De todo modo, houve um intenso intercâmbio de palavras e construções sintáticas entre essas línguas, bem como de práticas sociais, de modo que, ao fim e ao cabo, a Europa Ocidental, embora falando línguas de duas famílias, por sinal, aparentadas, constituía uma só civilização, com uma única religião, um só alfabeto, os mesmos costumes, a mesma arte, as mesmas tradições e onde germanos têm nomes latinos como Augusto ou Lourenço, assim como latinos têm nomes germânicos como Henrique ou Bernardo; onde nomes de cidades francesas terminam em ‑bourg (do germânico *burgaz) e nomes de cidades alemãs terminam em ‑anz e ‑enz (do latim ‑antia e ‑entia); onde sobrenomes italianos têm origem germânica e sobrenomes alemães têm origem latina, e assim por diante.

Sincronicidades entre a França e a Inglaterra

A origem dos atuais países da Europa Ocidental são os antigos reinos medievais: os reinos dos Francos e dos Burgúndios deu origem à França, os dos Alamanos, Bávaros e Turíngios à Alemanha, os dos Ostrogodos e Lombardos à Itália, os dos Anglos, Saxões e Jutos à Inglaterra, e assim por diante. A França e a Alemanha surgem simultaneamente quando o império de Carlos Magno é repartido entre seus descendentes em 843: Carlos o Calvo fica com a França e Luís o Germânico com a Alemanha. Porém, apesar dessa origem comum (que não deixa de ser uma simetria diagonal), é com a Inglaterra, unificada em 871 por Alfredo o Grande, que a França vai se espelhar ao longo de toda a sua história. E não apenas porque os franceses dominaram a Inglaterra por 300 anos (de 1066 a 1399), mas muitas analogias entre os dois povos e suas línguas nada têm a ver com influência direta. Esses dois países constituíram os dois grandes reinos da Idade Média, os dois grandes impérios coloniais da Idade Moderna e as duas grandes potências políticas e econômicas da Europa desde sempre, a ponto de o francês e o inglês terem sido sempre as duas principais línguas internacionais.[1] Foram sempre duas potências antagônicas (vide a Guerra dos Cem Anos, por exemplo), só tornando-se verdadeiramente aliadas a partir das duas guerras mundiais, nas quais foram também as duas grandes nações vitoriosas dentro da Europa Ocidental (graças a dois líderes extraordinários, Charles de Gaulle e Winston Churchill). Hoje são também as duas potências nucleares e os dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU na Europa Ocidental. Além disso, a Scotland Yard e a Sûreté Nationale são as duas polícias mais famosas da Europa.

Resultado de seus antigos impérios coloniais, a França e a Grã-Bretanha lideram as duas mais importantes comunidades de ex-colônias, a Comunidade Francesa (Communauté Française) e a Comunidade Britânica (Commonwealth).

Tanto a França quanto a Inglaterra têm origens parcialmente míticas, eternizadas na literatura popular. O chamado ciclo arturiano faz menção ao lendário rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda (século VI), precursores da nação inglesa, assim como o ciclo carolíngio relata os feitos de Carlos Magno e seus Pares de França (século VIII). Mas o lendário fundador da França faz parte do ciclo merovíngio: Clóvis (século VI), rei dos Francos e primeiro soberano do que viria a ser a França.

Porém, as simetrias históricas entre a França e a Inglaterra vão muito além disso e são verdadeiramente espantosas. Em primeiro lugar, um grande número de reis da França e da Inglaterra subiu ao trono no mesmo ano, sem que houvesse qualquer relação entre um fato e outro. Por exemplo, tanto Carlos VII da França quanto Henrique VI da Inglaterra reinaram de 1422 a 1461 (consequentemente, os antecessores de ambos, respectivamente Carlos VI e Henrique V, morreram em 1422). E seus sucessores, respectivamente Luís XI e Eduardo IV reinaram de 1461 a 1483. Além disso, tanto Francisco I (1515-1547) quanto Henrique VIII (1509-1547) faleceram em 1547. E tanto Carlos X quanto Jorge IV deixaram o trono em 1830.

Outra coincidência: Carlos VII teve seu trono usurpado por Henrique VI entre 1422 e 1429 (durante esse período, ambos os monarcas disputaram o trono francês). Eduardo IV também teve o trono usurpado por Henrique VI (eita reizinho usurpador!) entre 1470 e 1471 (aqui, ambos disputaram o trono inglês).

Outros dois fatos curiosamente simétricos foram as guerras de disputa dinástica ocorridas tanto na Inglaterra como na França. Na Inglaterra, travou-se, entre 1455 e 1485, a Guerra das Duas Rosas, que opôs as casas de York (cujo símbolo era a rosa branca) e Lancaster (rosa vermelha). Na França, houve entre 1587 e 1589 (cerca de cem anos depois) a disputa do trono conhecida como Guerra dos Três Henriques, que, como o nome diz, confrontou três nobres de nome Henrique (Henrique de Guise, Henrique de Navarra-Bourbon e Henrique III) na disputa pelo trono francês.

Além disso, em 1589 o último rei francês da dinastia Valois, Henrique III, foi sucedido pelo rei de Navarra Henrique IV de Bourbon, que era protestante, mas teve de converter-se ao catolicismo para assumir o trono, não sem enfrentar sangrenta oposição. Paralelamente, em 1603, a rainha inglesa Elizabeth I, última da dinastia Tudor, morreu virgem deixando o trono para o rei da Escócia Jaime I Stuart, que também era protestante, mas, suspeito de simpatizar com o catolicismo, sofreu oposição igualmente sangrenta. Até o fim da monarquia francesa, os reis da França ostentavam também o título de reis de Navarra. Igualmente, até hoje os reis da Inglaterra são também reis da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte.

A França teve Luís XIV, o Rei-Sol, cujo reinado, de 1643 a 1715 foi o mais longo da história da França (72 anos) e marcou o apogeu político, econômico e cultural do país (o chamado “século de Luís XIV”). O Reino Unido teve a rainha Vitória, cujo reinado, de 1837 a 1901 (64 anos), foi o segundo mais longo de sua história e igualmente coincidiu com o apogeu político, econômico e cultural da Inglaterra (a chamada “era vitoriana”). Ambos os reinados se iniciaram no segundo quartel de um século e terminaram no primeiro quartel do século seguinte.

Mais recentemente, o Reino Unido teve o reinado de Elizabeth II, o mais longo da história do país, que, com 70 anos de duração, praticamente alcançou o tempo de reinado de Luís XIV. Assim, os dois reis que mais reinaram no mundo pertencem às nações-espelho França e Grã-Bretanha.

Outro dado importante: a última residência oficial dos reis da França, o Palácio de Versalhes, foi mandado construir e inaugurado por Luís XIV. Igualmente, o Palácio de Buckingham tornou-se a atual residência dos monarcas britânicos no reinado de Vitória.

Por outro lado, o rei Carlos I da Inglaterra foi deposto e decapitado em 1649 pela Revolução Inglesa (1642-1649 ou 1651). Seguiu-se um período republicano (Commonwealth), logo transformado na ditadura (protetorado) de Oliver Cromwell (1653-1658) e de seu filho, Richard Cromwell, cujo mandato durou apenas oito meses, entre 1658 e 1659. Em 1660, a monarquia foi restaurada com o rei Carlos II (1660-1685) e seu sucessor, Jaime II, irmão dele, deposto em 1688 pela Revolução Gloriosa (atentem para o nome), que acabou com o absolutismo na Inglaterra.

Pois no século seguinte, o rei da França Luís XVI foi deposto em 1792 e decapitado no ano seguinte pela Revolução Francesa (1789-1799), ao que se seguiu a Primeira República, logo transformada na ditadura (consulado) e posteriormente no império de Napoleão I (1804-1814) e de seu filho, Napoleão II, cujo reinado durou apenas duas semanas, em 1815. Em 1814, a monarquia foi restaurada na pessoa de Luís XVIII, seguido de Carlos X, seu irmão, deposto em 1830 pela revolução conhecida como As Três Gloriosas (atentem para o nome), que pôs fim ao absolutismo na França. E assim como o filho de Cromwell sucedeu ao pai como Lord Protector da Inglaterra durante oito meses, o filho de Napoleão, Napoleão II, o sucedeu durante duas semanas. E Napoleão III, sobrinho do primeiro, igualmente reinou como imperador da França. Tudo muito similar, não?

Apenas a título de curiosidade: os algarismos dos anos das execuções de Carlos I (1649) e Luís XVI (1793) somam ambos 20. E ambos foram executados no mês de janeiro — Carlos I a 30 de janeiro de 1649, e Luís XVI a 21 de janeiro de 1793. E tanto os algarismos dos dias 21 quanto 30 somam 3. Ao morrer, Carlos I tinha 48 anos, e Luís XVI, 38. E o período entre a proclamação da república na Inglaterra e a restauração da monarquia (1649-1660) foi de 11 anos, enquanto na França esse período (1792-1814) foi de 22 anos, o dobro do tempo.

Para quem gosta de numerologia, há mais coincidências interessantes. A Primeira República francesa durou 12 anos (1792-1804) e o império de Napoleão, 10 anos (1804-1814); A república inglesa durou 11 anos (1649-1660) e o governo de Cromwell, 5 anos (1653-1658). A Revolução Inglesa durou 9 anos enquanto a Francesa durou 10. Carlos I foi executado dois anos antes do fim da Revolução Inglesa, e Luís XVI quatro anos após o início da Revolução Francesa. Mais uma vez, o dobro do tempo.

Assim como o protetorado inglês teve duas fases, a primeira com Oliver Cromwell de 1653 a 1658 e a segunda com Richard Cromwell de 1658 a 1659, o império de Napoleão também teve duas fases: de 1804 a 1814 e mais 100 dias (os famosos Cem Dias de Napoleão) em 1815.

No entanto, alguns historiadores consideram que a Revolução Inglesa terminou em 1649, com a execução de Carlos I, e não em 1651. Sob esse ponto de vista, tanto a Revolução Inglesa quanto a Francesa acabaram em ano terminado em 9.

A Revolução Francesa foi um movimento de inspiração liberal e libertária, o que tornou a França atual o principal modelo de democracia liberal. No sentido oposto, a Revolução Inglesa teve caráter puritano, e hoje o Reino Unido é o maior exemplo de monarquia conservadora. De todo modo, o regime constitucional foi implantado na Inglaterra em 1689 e na França em 1789.

A França teve 19 reis de nome Luís, de Luís I a Luís XVIII e mais Luís Filipe, que reinou depois de todos eles. Enquanto isso, a Inglaterra teve 9 reis de nome Eduardo, de Eduardo I a Eduardo VIII e mais Eduardo o Confessor, que reinou antes de todos eles. Luís IX de França e Eduardo o Confessor foram ambos santos. Tanto Luís quanto Eduardo foram os nomes mais frequentes de reis nesses dois países. O rei francês Luís XVII nunca reinou, pois morreu na prisão após a execução de seu pai, Luís XVI. Enquanto isso, Eduardo VIII reinou por apenas 11 meses, tendo abdicado do trono para casar-se com uma plebeia.

É bom lembrar também que a França foi o centro intelectual da Revolução Comercial nos séculos XVI-XVII e berço da doutrina econômica chamada Mercantilismo (com Jean-Baptiste Colbert) e que a Inglaterra protagonizou a Revolução Industrial nos séculos XVIII-XIX, dando origem ao Industrialismo (com Adam Smith).

Quanto à Revolução Científica do século XVII, foi obra principalmente de dois filósofos, René Descartes (francês) e Francis Bacon (inglês), e de dois cientistas, Galileu Galilei (italiano) e Johannes Kepler (alemão).

Por fim, tanto a França quanto o Reino Unido tiveram um período de sua história conhecido como Regência. A regência francesa (Régence, em francês) ocorreu de 1715 a 1723, enquanto o rei Luís XV era menor de idade. Já a regência britânica, conhecida como Regency, se deu entre 1811 e 1820 (cerca de cem anos depois), período em que o rei Jorge III foi considerado mentalmente doente. Ambos os períodos históricos se situam na segunda década de seus respectivos séculos (XVIII e XIX) e ambos deram nome a estilos artísticos: o estilo Régence influenciou principalmente o mobiliário, e o estilo Regency dominou a arquitetura. A regência francesa durou oito anos e a britânica, nove.

Creio que esses exemplos já bastam para demonstrar o paralelismo entre esses países.

__________

[1] Um fato curioso e simétrico entre essas duas línguas é que o francês, por ter sido o idioma de maior prestígio internacional do século XII ao XIX, é a língua que mais exportou palavras para outros idiomas, ao passo que o inglês, graças à enorme extensão do Império Britânico — o maior de todos os tempos —, foi a língua que mais importou palavras, tendo um léxico formado de itens das mais diversas origens.

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