Os nomes tradicionais das regiões onde se situam atualmente a França, a Itália, a Grã-Bretanha e a Alemanha, bem como as designações atuais desses países, mantêm entre si interessantes relações de simetria, sobretudo se considerarmos a grafia latina desses nomes, que corresponde à forma como os romanos designavam as províncias do seu império onde mais tarde se estabeleceram esses países, as quais por sua vez tinham seus nomes derivados da designação dos povos bárbaros (isto é, pré-romanos ou germânicos) que os habitavam.
Assim, o território da França atual era chamado pelos romanos de Gallia, isto é, país dos Galli (gauleses), e, posteriormente, com a invasão dos francos (lat. Franci), passou a chamar-se Francia. A Italia romana tinha esse nome por ser habitada pelos Itali, ou ítalos, e manteve esse nome até o presente. A província da Britannia era o território dos Britanni ou Britones, isto é, bretões. Com a invasão dos anglos (Angli) e saxões, passou a chamar-se Anglia. Finalmente, a Germania era habitada pelos germanos ou Germani, que também eram conhecidos como Teutones ou teutões, donde a designação Teutonia. Um dos povos germânicos que ocuparam a região da Germânia eram os alamanos (Alemanni), cujo nome deu origem à designação Alemannia.
Confrontando as designações Gallia, Italia, Britannia e Germania, que correspondem ao nome das províncias romanas, observa-se em primeiro lugar que os quatro nomes possuem terminações que contêm a vogal a seguida de consoante simples ou dupla e da terminação ‑ia, característica dos nomes de países em latim. Nos nomes correspondentes aos países latinos (Gália e Itália), a consoante que se segue ao a é l, ao passo que nos nomes correspondentes aos países germânicos (Britânia e Germânia) a consoante que se segue ao a é n (dito de outro modo, Gália rima com Itália, e Britânia rima com Germânia). Por outro lado, em Gallia o l é duplo, enquanto em Italia é simples; paralelamente, em Britannia o n é duplo, e simples em Germania.
Em segundo lugar, tanto Gallia quanto Germania iniciam-se por G. De outra parte, Italia e Britannia possuem ambos um elemento IT antes da vogal tônica. Em Britannia e em Germania, abstraídos o G inicial e o elemento IT, sobram respectivamente BR e ERM, ambos formados por R e uma consoante labial (B ou M). Em Gallia e Italia, abstraídos G e IT, não sobra nada.
Existem, portanto, relações de simetria horizontal, vertical e diagonal entre esses topônimos. Podemos visualizar melhor essas relações grafando os grupos de letras que se correspondem com a mesma cor. Temos, então:
G-A-LL-IA IT-A-L-IA
BR-IT-A-NN-IA G-ERM-A-N-IA
Conforme foi dito, estes são os nomes das províncias romanas localizadas nessas regiões. Com as invasões germânicas entre os séculos IV e VI da nossa era, essas províncias passaram a ser denominadas segundo o nome das tribos germânicas que ali se estabeleceram, o que, na maioria dos casos, deu origem à atual denominação desses países. Assim, a tribo dos francos deu origem à denominação França (Francia), a tribo dos anglos denominou a Inglaterra (Anglia), a Itália conservou seu nome latino (Italia), enquanto os diversos nomes pelos quais se designa a Alemanha nas diversas línguas se originam quer do nome latino Germania (italiano Germania, inglês Germany), quer do nome da tribo dos alamanos (português Alemanha, espanhol Alemania, francês Allemagne), quer ainda da antiga tribo dos teutões, cuja antiga denominação germânica theudisk foi latinizada para theodiscus (alemão Deutschland, sueco, norueguês e dinamarquês Tyskland). Consequentemente, as formas latinas de todos os nomes de povos que deram origem às denominações desses países, tanto as romanas quanto as medievais, são as seguintes:

Atualmente, a França possui uma única denominação, derivada de Francus, em todas as línguas (port. França, esp. e it. Francia, fr. e ing. France, al. Frankreich, sue. e nor. Frankrike, etc.), da mesma forma que a Itália (port. Itália, esp. e it. Italia, fr. Italie, ing. Italy, al., sue. e nor. Italien, etc.). Já o país que é o berço da língua inglesa possui três denominações — que, de certa forma, correspondem a três realidades geográficas e políticas ligeiramente diferentes: Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido (essas três denominações se repetem nas demais línguas). A Alemanha apresenta igualmente três diferentes denominações, que variam conforme a língua: port. Alemanha, esp. Alemania, cat. Alemanya, fr. Allemagne, a partir de Alemannus; ing. Germany, it. e romeno Germania, a partir de Germanus; al. Deutschland, holandês Duitsland, sue. e nor. Tyskland, a partir de Theodiscus ou Teuto. (O adjetivo italiano para “alemão” é tedesco, também originário de Theodiscus.)
Se compararmos, por exemplo, Gal-lus e Ang-lus, veremos que, além da igual terminação ‑lus, os elementos Gal‑ e Ang‑ possuem ambos as letras g e a, diferindo apenas pela substituição de l por n. (Note que a relação entre o l de Gallus e o n de Anglus é paralela à relação entre o l de Gallia e Italia e o n de Britannia e Germania.) Essas denominações deram origem respectivamente aos adjetivos galicano e anglicano, referentes às duas igrejas nacionais surgidas no Renascimento: a igreja francesa, de inspiração católica, e a inglesa, de inspiração protestante, sobre as quais falarei oportunamente. Observe-se ainda a presença do elemento an tanto em Francus quanto em Anglus. Isso fez com que aparecesse um elemento an tanto em Français quanto em Anglais, ou um elemento en tanto em French como em English.
Por outro lado, o fr de Francus é comparável ao br de Britannus. Podemos, então, estabelecer uma relação diagonal entre as denominações romana e medieval de França e Inglaterra:
GALLIA FRANCIA
BRITANNIA ANGLIA
Além disso, nos elementos de composição franco-, anglo-, ítalo- e teuto-, encontráveis em compostos como franco-brasileiro, anglo-americano, etc., percebemos a presença de anc, ang em franco- e anglo- e a presença de t em ítalo- e teuto-.
Finalmente, é espantosa a semelhança entre os nomes România e Germânia, designativos do conjunto dos povos românicos e dos germânicos, respectivamente. E esses nomes sobrevivem na denominação da Romênia e da Alemanha (Germany em inglês, Germania em italiano). O mesmo não se dá em relação a outras famílias linguísticas da Europa (não há um país chamado Eslávia ou Céltia, por exemplo).
Como a Itália é o berço da civilização romana, cujo centro, a cidade de Roma, se localiza na região do Lácio (Latium em latim), os designativos romano, românico, latino e italiano têm todos a mesma origem geográfica. Consequentemente, temos quatro designações étnicas para cada grupo: de um lado, germânicos, saxônicos, anglo-saxônicos ou teutônicos; de outro, românicos, latinos, neolatinos ou itálicos. (Outros grupos étnicos, como os gregos e os eslavos, têm bem menos designações.) E assim como o elemento latino se repete em neolatino, o elemento saxônico se repete em anglo-saxônico.
Os nomes das capitais dos países também apresentam simetrias significativas.
- Paris, Berlim (Berlin) e Madri (Madrid) são, tanto em português quanto em suas línguas originais, palavras dissílabas oxítonas iniciadas por consoante labial (p, b, m), terminadas por dental (s, n, d), contêm r no meio e i na última sílaba;[1]
- Roma, Londres (London) e Estocolmo (Stockholm) são, nas línguas de origem, dissílabos paroxítonos que contêm a vogal o na primeira sílaba e consoante nasal (m ou n) na última;[2]
- Lisboa e Oslo têm sonoridades semelhantes, especialmente em suas respectivas línguas: [liʒboɐ] x [uʃlu];[3]
- Barcelona, Copenhague (København), Bucareste (București) e Reiquiavique (Reykjavík) são quadrissílabos, em contraste com as demais capitais, de nomes breves.
Em resumo, as correspondências são as seguintes:

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[1] Neste caso, temos uma simetria cruzada. (Para simetria cruzada, confira o Glossário).
[2] Idem à nota anterior.
[3] Para a explicação dos símbolos fonéticos, veja o Alfabeto fonético.
Observação: um fato curioso ligando Lisboa e Oslo é que nenhuma das duas cidades era originalmente a capital de seu respectivo país. A primeira capital de Portugal foi o Porto, e a primeira da Noruega foi Bergen. A capital portuguesa foi transferida do Porto para Lisboa em 1255, e a capital norueguesa, de Bergen para Oslo em 1299. Hoje, tanto o Porto quanto Bergen são as segundas maiores cidades de seus países. E ambas têm nomes transparentes: “o Porto” e “os Montes”. Atente também para as datas com algarismos repetidos: 1255 e 1299.
Outro aspecto interessante a respeito de nomes de localidades e outros acidentes geográficos é que países-espelho têm vários deles com sonoridades e/ou grafias semelhantes.
Vejamos alguns exemplos:
IBÉRIA | ESCANDINÁVIA |
Arenal, Bernal, Pombal | Arendal[1], Mondal |
FRANÇA | GRÃ-BRETANHA |
Étaples | Barnstaple Banbury, Canterbury |
ITÁLIA | ALEMANHA |
Bolonha | Colônia |
Também há coincidências interessantes entre os nomes de algumas línguas que são espelhos entre si. Em nosso idioma, os designativos “português” e “norueguês” são quase idênticos (veja, em maiúsculo, as letras coincidentes: pORtUGUÊS x nORUeGUÊS). Em francês, os termos français e anglais têm em comum as sequências de letras an e ais. Em sueco, a língua espanhola se chama spanska e a sueca, svenska. Em islandês, “romeno” é rúmenska e “islandês” é íslenska.
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[1] Em norueguês, Arendal significa “Vale do Aren”. E na Espanha há a cidade de Val d’Aran, que significa “Vale do Aran”.