A Europa é um continente sui generis: mesmo sendo o menor deles, é o berço da mais influente civilização que já existiu, a Civilização Ocidental, a qual, tendo-se espalhado por todos os cantos da Terra, transformou-se na Civilização Global, de modo que hoje o estilo de vida ocidental — isto é, europeu — está por toda parte, até entre os povos mais resistentes à influência estrangeira. Além disso, a Europa tem uma extrema homogeneidade étnica e cultural: uma população nativa exclusivamente branca (europeus de outras etnias são fruto de imigrações recentes), poucas famílias linguísticas, originárias — com pouquíssimas exceções — de uma única língua ancestral, chamada indo-europeu (surgida na região do Cáucaso por volta do sexto milênio antes de Cristo), e, sobretudo, um legado cultural único, resultante do cruzamento da civilização greco-romana com o Cristianismo.
Geograficamente, a Europa é uma massa continental que se estende horizontalmente de leste a oeste, com ilhas e/ou penínsulas projetando-se para o norte e o sul. Essa massa continental está confinada entre dois mares, o mar do Norte ao norte e o Mediterrâneo ao sul; é mais estreita a oeste e vai-se alargando em direção ao leste. A parte ocidental do continente está ocupada em seu centro-sul pelos povos itálicos, também chamados de latinos, neolatinos ou românicos, enquanto o centro-norte é povoado pelos saxônicos (ou anglo-saxônicos, teutônicos ou germânicos). O Leste europeu é dominado pelos eslavos e algumas outras etnias (gregos, fino-úgrios, albaneses, etc.) que não tomam parte no fenômeno supersincrônico. Observemos o mapa da Europa a seguir (figura 1):

Na figura 1, os povos de línguas românicas ocupam a área verde e os de línguas germânicas, a área vermelha. (Note-se que alguns Estados partilham mais de uma língua, por isso não fazem parte propriamente nem de um grupo nem do outro, mas funcionam como Estados satélites no sistema; mais adiante, veremos que eles também desempenham um papel no estabelecimento de simetrias.) O azul escuro representa os eslavos, o azul claro os bálticos, o rosa os gregos, o amarelo os albaneses, e as áreas brancas são povoadas por populações de línguas não indo-europeias, como húngaros, finlandeses e turcos.
Atendo-nos apenas aos povos românicos e germânicos, observamos que as duas famílias formam arcos invertidos (figura 2).

No caso românico, a partir da França, estende-se a sudoeste a Península Ibérica (também chamada de Ibéria) e a sudeste a Itálica, abarcando o Mar Mediterrâneo (por isso esses povos também são chamados de mediterrâneos). Separado desse conjunto, em posição bem isolada no extremo leste estão a Romênia e a Moldávia (esta, historicamente, uma província romena, portanto formando ambas uma mesma nação). No caso germânico, a partir da Alemanha e Áustria (também historicamente uma mesma nação), estendem-se a noroeste as Ilhas Britânicas e a nordeste a Escandinávia (também conhecida como Escânia ou Península Escandinava), em torno do Mar do Norte (daí falarmos em povos nórdicos). Igualmente isolada desse conjunto, no extremo ocidental está a ilha da Islândia.
Se reduzirmos o mapa a um esquema, teremos a seguinte situação, em que o espelhamento fica evidente:

Tanto a Grã-Bretanha quanto a Itália são massas territoriais distribuídas verticalmente que têm como espinha dorsal uma cadeia de montanhas que as percorre de norte a sul (figuras 3 e 4). Na Itália, essa cadeia são os montes Apeninos; na Grã-Bretanha, são os montes Peninos. Como a Grã-Bretanha é uma ilha, a cultura britânica costuma ser chamada de “insular”; analogamente, a cultura provinda da Península Itálica é chamada de “peninsular”. Além disso, há na Itália uma região chamada Úmbria; na Inglaterra, existe a Nortúmbria (Northumberland), literalmente, Úmbria do Norte. Os territórios tanto da Itália quanto da Grã-Bretanha são mais largos perto do continente e mais estreitos à medida que avançam sobre o mar. Finalmente, a Itália tem uma província chamada Trento e a Inglaterra, um rio chamado Trent.

Olhando agora para as penínsulas Ibérica e Escandinava (figuras 5 e 6), vemos duas massas geográficas apontando para oeste e divididas em dois países, um dos quais (Portugal, no caso ibérico; Noruega, no escandinavo) ocupa uma estreita faixa de terra no sentido norte-sul, na borda ocidental da península, de frente para o Atlântico. A maior parte de ambas as penínsulas é ocupada por outros dois países: Espanha e Suécia, respectivamente. Ambas as penínsulas abrigam povos conhecidos por seu passado de grandes navegadores: os vikings escandinavos desbravaram o extremo norte da América (Groenlândia e Canadá) entre os séculos IX e XI, enquanto os portugueses e espanhóis conquistaram a América nos séculos XV e XVI (de certo modo, podemos dizer que tanto os ibéricos quanto os escandinavos “descobriram” a América). Como curiosidade, os noruegueses são grandes produtores de bacalhau, por eles chamado de “ouro branco”, e os portugueses, grandes consumidores. Aliás, dizem algumas fontes históricas que os portugueses pescavam esse peixe nas águas do atual Canadá desde o século XIV e foram também seus introdutores na gastronomia (hoje o bacalhau é o prato nacional português). No entanto, outras fontes revelam que o bacalhau já era pescado e consumido por vikings noruegueses e islandeses desde o século IX. E que os portugueses foram contratados pelos noruegueses na Idade Média como marinheiros e pescadores de bacalhau.
Finalmente, tanto a Escandinávia quanto a Ibéria têm uma região chamada Lapônia. A Lapônia escandinava cobre grande parte da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia, ao passo que a chamada Lapônia Espanhola ou Lapônia do Sul fica na Espanha; são as duas regiões de mais baixa densidade demográfica da União Europeia (confira www.elhueco.org/la-laponia-del-norte-y-la-laponia-espanola-se-encontaran-en-la-reunion-de-mayo-de-el-hueco). E o nome geográfico Gotland, “terra dos godos”, existe tanto na Escandinávia quanto na Ibéria: na Suécia, há a ilha Gotland, e na Ibéria há a Catalunha, cujo nome, segundo a maioria dos etimólogos, provém de Gotland.

O núcleo desse grande sistema formado por ambas as famílias (que, por sinal, constituem o próprio cerne da Civilização Ocidental, já que os povos do Leste europeu tiveram pouca ou nenhuma participação na constituição histórica dessa civilização) são os quatro países centrais do mapa da Figura 1: França, Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia, País de Gales e outrora também a Irlanda), Itália e Alemanha (que historicamente incluiu a Áustria). Em torno dessas quatro nações girou até recentemente toda a história do Ocidente: ali ocorreram os grandes fatos históricos, os grandes movimentos políticos, econômicos, culturais e religiosos (que discutiremos mais adiante), assim como as grandes descobertas científicas; hoje essas quatro nações constituem o centro da União Europeia[1] e são as quatro potências políticas e comerciais da Europa (são as únicas quatro nações europeias a fazer parte do chamado G7, grupo das nações mais ricas e poderosas do planeta).
É preciso aqui fazer uma ressalva, que será importante para a compreensão de toda a teoria que embasa a supersincronicidade: comparando-se os dois arcos formados pelos territórios românicos e germânicos, pode-se ter uma primeira impressão de que a nação-espelho da França é a Alemanha, e a da Itália é a Grã-Bretanha. Isso é em parte verdade em termos geográficos, mas em outros aspectos que iremos estudar (históricos, culturais, linguísticos e mesmo em outros pontos da geografia), o que temos são dois tipos de analogia que se combinam num complexo padrão matemático: um vertical e um diagonal (esse ponto da teoria é explicado em As leis da supersincronicidade), sendo o vertical (por exemplo, entre França e Inglaterra) o principal ou predominante, e o diagonal (entre França e Alemanha) secundário e mais fraco. No entanto, é o jogo de ambas as analogias o que torna a supersincronicidade um fenômeno interessante e pouco óbvio: se houvesse relações de um único tipo, não teríamos simetria e sim identidade.
Observemos agora a figura 7.

O conjunto formado por França, Grã-Bretanha, Irlanda, Bélgica e Península Ibérica situa-se aproximadamente entre os meridianos 5ºE e 10ºW, enquanto o grupo formado por Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Holanda e Escandinávia localiza-se aproximadamente entre os meridianos 5ºE e 20ºE, portanto ocupando faixas geográficas de igual largura (aproximadamente 15 graus). Bem mais a oeste (meridianos 15ºW a 25ºW) está a Islândia, e bem mais a leste (meridianos 20ºE a 30ºE) estão a Romênia e a Moldávia.
As capitais Paris e Londres, assim como Roma e Berlim, situam-se aproximadamente nas mesmas longitudes. Aliás, há inúmeras similaridades topográficas e turísticas entre Paris e Londres, assim como entre Roma e Berlim, das quais falarei em artigos específicos.
O meridiano 5ºW limita os extremos noroeste da França e sudoeste da Inglaterra. Essas duas extremidades recebem o nome de “fim da terra” (o cabo Finistère na França e o cabo Land’s End na Inglaterra).

A região onde se localiza o Finistère é chamado de Bretanha, ou Pequena Bretanha, e ali habitam os bretões, povo de origem céltica que fala a língua bretã. Dentro da Bretanha há uma região chamada Cornualha (Cornouaille em francês).
Do outro lado do Canal da Mancha, na Grã-Bretanha (isto é, Grande Bretanha), o cabo Land’s End fica na região igualmente chamada de Cornualha (Cornwall em inglês), habitada por um povo céltico de língua córnica. No extremo oposto, as cidades de Dover, na Inglaterra, e Calais, na França, separam o Canal da Mancha do Mar do Norte. Aliás, França, Grã-Bretanha, Ibéria e Escandinávia são banhadas tanto pelo Oceano Atlântico quanto pelos seus respectivos mares internos (Mediterrâneo e do Norte). Já a Itália e a Alemanha são banhadas por esses mares e também pelo Adriático (no caso da Itália) e pelo Báltico (no caso alemão). O Báltico também banha a Suécia, assim como o Golfo de Biscaia banha a Espanha.
Uma curiosidade: na Antiguidade, a Gália, isto é, a região da atual França, era habitada pelos gauleses, e as ilhas Britânicas eram habitadas pelos bretões. Hoje, no noroeste da França fica a Bretanha, habitada pelos bretões, e no sudoeste da Grã-Bretanha, o País de Gales, habitado pelos galeses. |
Os principais rios da França e da Inglaterra, respectivamente o rio Sena e o rio Tâmisa, cortam as capitais Paris e Londres na direção leste-oeste. Já os principais rios da Itália e da Alemanha, isto é, o Pó e o Reno, passam longe das capitais Roma e Berlim. Estas são banhadas por dois pequenos rios, respectivamente o Tibre (Tevere) e o Spree. O vale do rio Pó e o do rio Reno são as regiões mais industrializadas de seus respectivos países. Além disso, o vale do rio Pó também é conhecido como Padânia (do nome latino do rio, Padus); em contrapartida, a mais importante região da Alemanha cortada pelo Reno se chama Renânia.
O centro de Paris é conhecido como Cité (cidade fortificada), tanto que a ilha do Rio Sena localizada no centro da cidade se chama Île de la Cité. Da mesma forma, o centro de Londres é conhecido como City.
O rio Sena divide Paris em duas áreas, a Rive Droite (margem direita, ao norte do rio) e a Rive Gauche (margem esquerda, ao sul), assim como o rio Tâmisa separa Londres na North Bank (margem norte) e na South Bank (margem sul). Tanto a Rive Droite parisiense quanto a South Bank londrina são predominantemente áreas de entretenimento, boemia, teatros, restaurantes e moradia e local de trabalho de artistas em geral.
Cabe também dizer que Paris e Londres foram por muito tempo as duas maiores metrópoles europeias e são sedes de algumas das mais importantes organizações internacionais.
Também são dignas de nota as semelhanças geográficas e históricas entre Veneza e Amsterdã, das quais falaremos mais detalhadamente em Nações e seus “espelhos”, e entre Roma e Berlim, especialmente no tocante aos enclaves que existem ou existiram dentro delas. Trata-se do Estado do Vaticano, estabelecido em 1929, que constitui um território independente pertencente à Santa Sé dentro da cidade de Roma e cercado por um grande muro, o Muro do Vaticano, bem como da cidade de Berlim Oriental, criada em 1949 e extinta em 1990, enclave e capital da antiga Alemanha Oriental dentro da cidade de Berlim e separada de Berlim Ocidental pelo famoso e já quase totalmente demolido Muro de Berlim.
Observe os anos de criação desses enclaves: Vaticano, 1929; Berlim Oriental, 1949.



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[1] O Reino Unido deixou a União Europeia em 2020.