Sincronicidades entre a Itália e a Alemanha

A Itália e a Alemanha sempre foram países politicamente desunidos, divididos em muitos pequenos reinos e principados, tendo ambos só atingido a unificação política no século XIX. A Itália sobreviveu pouco tempo, entre os séculos IX e XI, como reino (Regnum Italicum, ou Reino da Itália), fragmentando-se a seguir num sem-número de pequenos principados, ducados, etc. A única entidade dotada de poder na península era o Estado Pontifício, ou Santa Sé Apostólica Romana (mais simplesmente Santa Sé), cujo soberano era o papa, eleito pelo Colégio dos Cardeais. A Santa Sé durou de 756 a 1870, quando Roma foi tomada pelos patriotas italianos, só voltando a ter um território (o minúsculo Estado do Vaticano) a partir de 1929. Não é preciso dizer que os papas sempre tiveram grande poder político (o chamado poder temporal) ao lado do poder espiritual, já que coroavam e excomungavam reis e, em alguns casos, tinham exércitos, faziam guerras e conquistavam territórios.
Enquanto isso, a Alemanha, que como havíamos dito, surgira como Reino da Alemanha (Regnum Teutonicum) após a partilha do império de Carlos Magno (843), logo se fragmentou. Apenas em 962 surgiu uma entidade política chamada Sacro Império Romano-Germânico (ou apenas Sacro Império, ou Santo Império), que jamais foi um Estado unitário, apenas uma grande federação de pequenos estados centro-europeus cujos príncipes elegiam o imperador por meio do Conselho de Eleitores. O Sacro Império teve grande peso político na Europa, embora sequer tivesse uma capital fixa (a partir do século XIV a capital de facto passou a ser Viena), e durou de 962 a 1806, quando, dissolvido por Napoleão, foi substituído pelo Império Austro-Húngaro (1806-1918) e pela Confederação do Reno (1806-1813). De certa forma, o Sacro Império sobrevive até hoje no minúsculo Ducado de Liechtenstein (a partir de 1719 — note que tanto essa data quanto a data de surgimento do Estado do Vaticano terminam em 9).
A Santa Sé e o Sacro Império sempre se opuseram, como na chamada Questão das Investiduras (1075-1122), dando origem ao fenômeno chamado de cesaropapismo. O papa e o imperador mantiveram durante a Idade Média uma intensa disputa sobre a liderança da cristandade. É interessante notar que, apesar de o Estado pontifical só ter surgido em 756 (a partir do chamado Patrimônio de São Pedro), o papado existe desde o século I d.C. (o primeiro papa teria sido o próprio São Pedro), embora o primeiro pontífice a ostentar o título de papa tenha sido Libério, em 352 d.C. Ao mesmo tempo, o Sacro Império, embora fundado em 962, pretendia ser a continuidade histórica do Império Romano do Ocidente, existente desde 395 d.C. Além disso, o Sacro Império chegou a ter territórios na Itália (alguns imperadores de lá governaram), conflitando ainda mais com os domínios do papa (da mesma forma como a ocupação normanda na Inglaterra feria a soberania inglesa).
A unificação italiana ocorreu em 18 de fevereiro de 1861, por obra do conde Camilo Cavour, em torno da figura do rei do Piemonte Vitório Emanuel II. A unificação alemã foi feita em 18 de janeiro de 1871 pelo barão Otto von Bismarck em favor do rei da Prússia Guilherme I. Atentem para as seguintes datas: unificação italiana — 18 de fevereiro de 1861; unificação alemã — 18 de janeiro de 1871; reinado de Vitório Emanuel II — 1861-1878; reinado de Guilherme I — 1871-1888. Intrigante, não? E, ainda, Roma tornou-se capital da Itália unificada em 1870, assim como Berlim se tornou capital da Alemanha unificada em 1871.
A Itália unificada teve quatro reis: Vitório Emanuel II, Humberto I, Vitório Emanuel III e Humberto II, sendo que este último reinou por apenas um mês, em 1946. A Alemanha unificada teve três imperadores: Guilherme I, Frederico III e Guilherme II; Frederico III reinou por apenas três meses. Notem que o primeiro e o terceiro rei da Itália tinham o mesmo nome, assim como o primeiro e o terceiro imperador alemão.
Além disso, o imperador Guilherme I iniciou seu reinado como rei da Prússia no mesmo ano em que Vitório Emanuel II se tornou rei da Itália (1861).
Outra curiosidade sobre nomes de reis desses dois países é que, tanto no Piemonte quanto na Prússia, eram comuns reis com nomes duplos. Assim, tivemos no Piemonte Carlos Emanuel, Vitório Amadeu, Vitório Emanuel, Carlos Félix e Carlos Alberto. Na Prússia tivemos João Sigismundo e Frederico Guilherme.
Antes da unificação, a Itália teve um rei das Duas Sicílias, Fernando II, cognominado de Rei Bomba. Também antes da unificação, a Alemanha teve um rei da Prússia, Frederico Guilherme I, chamado de Rei Soldado.


A república foi proclamada na Alemanha logo após a Primeira Guerra Mundial e na Itália logo após a Segunda. Na Primeira Guerra Mundial, França e Reino Unido uniram-se à Rússia na Tríplice Entente, e Itália e Alemanha uniram-se ao Império Austro-Húngaro na Tríplice Aliança. Na Segunda Guerra Mundial, França e Reino Unido uniram-se aos EUA e à União Soviética nos Aliados, e Itália e Alemanha uniram-se ao Japão no Eixo.
Como todos sabem muito bem, a Itália foi o berço do fascismo, com Benito Mussolini (primeiro-ministro de 1922 a 1945), e a Alemanha o berço do nazismo, com Adolf Hitler (chanceler de 1933 a 1945). Ambos os regimes eram uma cópia um do outro, e os dois países se uniram politicamente no chamado Eixo, cujo desfecho trágico todos conhecemos. Sua simbologia e seus rituais eram idênticos: a saudação romana com o braço direito levantado, a remissão a símbolos como a águia, o fascio (feixe) e a suástica, o culto às figuras divinizadas do Duce e do Führer (ambas, palavras que significam “líder, condutor”). Na verdade, essa simbologia, que em grande parte remete à civilização romana, é uma eterna reedição do sonho de construir um imperium mundi, isto é, de reunir o Ocidente e reviver o Império Romano. Foi assim com Carlos Magno, os imperadores germânicos, Napoleão, Hitler e Mussolini.
Mais uma curiosa semelhança. Tanto Hitler quanto Mussolini tiveram amantes famosas: a de Hitler era Eva Braun e a de Mussolini, Clara Petacci. E o mais curioso vem agora: Eva nasceu em 6 de fevereiro de 1912 e morreu a 30 de abril de 1945; Clara nasceu em 28 de fevereiro de 1912 e morreu em 28 de abril de 1945. Ambas tinham 33 anos e morreram ao lado de seus companheiros.
Notem que Mussolini chegou ao poder em 1922 e Hitler em 1933, anos com algarismos repetidos. Mussolini adotou o título de Duce em 1925, e Hitler intitulou-se Führer em 1934. A cidade natal do ditador italiano se chama Predappio (também conhecida como Dovia di Predappio), e a do ditador alemão é Braunau (também conhecida como Braunau am Inn). Há até uma certa semelhança sonora entre os nomes Predappio e Braunau.

A Itália e a Alemanha foram também desde o século XIX os maiores exportadores de imigrantes para o Novo Mundo (vide as colônias desses povos no Sul do Brasil).

Se a Itália foi o berço da revolução cultural chamada Renascença, a Alemanha produziu a revolução religiosa que foi a Reforma, também chamada de Reforma Protestante. (Tanto Renascença quanto Reforma são nomes iniciados pela sílaba “re”.) Mas a Alemanha teve a segunda mais importante Renascença, situada na região de Flandres (que à época pertencia ao Sacro Império). E, para combater o protestantismo resultante da Reforma, a Itália liderou a Contrarreforma, ou Reforma Católica. Assim, Itália e Alemanha passaram a ser as sedes das duas grandes confissões do Cristianismo no Ocidente: o Catolicismo e o Protestantismo. E o interessante é que todos os povos germânicos, com exceção dos austríacos, se converteram ao Protestantismo, assim como todos os latinos, com exceção dos romenos, são católicos.
Portanto, a França revolucionou a política com a Revolução Francesa, a Inglaterra revolucionou a economia com a Revolução Industrial (ambas no século XVIII), a Itália, a cultura com o Renascimento, e a Alemanha, a religião com a Reforma (ambas no século XVI). Aliás, enquanto a França fazia a Revolução Comercial no século XVII, a Inglaterra fazia a Revolução Inglesa; e enquanto a Inglaterra fazia a Revolução Industrial no século XVIII, a França fazia a Revolução Francesa.
Cabe ainda notar que as revoluções ocorridas na Itália e na Alemanha (cultural e religiosa) foram mais “ideológicas”, ao passo que as ocorridas na França e na Inglaterra foram mais “pragmáticas”, já que afetaram a economia e a política.
Para completar, durante a Idade Moderna (séculos XVI a XIX), a França assumiu a liderança cultural na literatura, a Inglaterra no teatro, a Itália nas artes plásticas e a Alemanha na música.
Mas, se a Itália nos deu a tríade das artes plásticas com Leonardo, Rafael e Michelangelo, e a Alemanha nos brindou com o trio de gênios musicais que foram Bach, Mozart e Beethoven, não é menos verdade que a primeira grande epopeia escrita em língua vulgar foi a Divina Comédia, de Dante (século XIV), e a última foi Fausto, uma Tragédia, de Goethe (século XIX), ambas versando sobre o Inferno e o Diabo. A Comédia de Dante divide-se em três partes e a Tragédia de Goethe, em duas. Notem ainda a semelhança nas terminações te de Dante e the de Goethe. Esses dois autores são tidos como os maiores de suas respectivas línguas, tanto que os institutos internacionais de divulgação das línguas e culturas italiana e alemã se chamam respectivamente Istituto Casa di Dante e Goethe Institut. (Por outro lado, os organismos internacionais de divulgação das línguas e culturas francesa e britânica chamam-se respectivamente Aliança Francesa e Cultura Inglesa.)
Por sinal, a língua italiana, em que foi escrita a Divina Comédia, era chamada naquela época de volgare, “vulgar”, isto é, a língua do povo, porque a Itália ainda não existia como entidade política. Do mesmo modo, o nome que os alemães dão à sua própria língua é Deutsch, que significa literalmente “popular, vulgar”. Inversamente ao que ocorreu com outros países, foi o nome da língua alemã que deu nome ao país Alemanha (Deutschland em alemão).
Curiosamente, tanto Rafael, que se situa cronologicamente entre Leonardo e Michelangelo, quanto Mozart, que se situa entre Bach e Beethoven, morreram jovens: Rafael com 37 anos e Mozart com 35.

Itália e Alemanha também produziram os dois maiores compositores de ópera de todos os tempos: Giuseppe Verdi (1813-1901) e Richard Wagner (1813-1883), por sinal ambos nascidos em 1813 e com sobrenome iniciado por som de “v”. E não à toa os dois idiomas mais representativos do canto lírico são o italiano e o alemão.

Por último, a Itália e a Alemanha foram palco, nos anos 1970, da ação de grupos guerrilheiros de orientação comunista que ficaram famosos por sua ousadia. Na Itália, havia os Autônomos (gli Autonomi) e as Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse — BR), que sequestraram e executaram o ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro em 1978. Na Alemanha, havia os Autônomos (die Autonomen) e a Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion — RAF), também conhecida como Grupo Baader-Meinhof, que sequestrou e executou em 1977 o empresário Hanns-Martin Schleyer, no que ficou conhecido como o Outono Alemão. Ainda na política, a Itália tem um partido chamado Unione dei Democratici Cristiani e Democratici di Centro (sigla UDC), e a Alemanha tem o partido Christlich Demokratische Union Deutschlands (sigla CDU), ambos de ideologia democrata cristã.

