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SUPERSIMETRIA E CRIAÇÃO DE LÍNGUAS

Muitas pessoas têm como passatempo inventar línguas. Sim, inventar línguas! Tanto que já existem muitos idiomas artificiais, os chamados conlangs (constructed languages), desde aqueles criados para ser línguas internacionais, como o esperanto e o eurish, passando por línguas usadas em obras de ficção, como o klingon de Jornada nas Estrelas, o na’vi de Avatar, o dothraki e o valiriano de Guerra dos Tronos e as línguas criadas por J. R. R. Tolkien em romances como O Senhor dos Anéis, até chegar a alguns malucos que criam línguas por pura diversão — ou falta do que fazer.

Inventar idiomas é um passatempo desafiador, pois exige conhecimento linguístico (em geral, os criadores de línguas são poliglotas) e muito raciocínio lógico. Afinal, as línguas naturais se desenvolveram ao longo de séculos, faladas por populações que as testaram na prática. Portanto, uma língua natural é um sistema que seguramente funciona, senão já teria desaparecido — ou evoluído para outro sistema. Já uma língua artificial não oferece nenhuma garantia de que funcione em todas as situações. Por mais que seu autor pense nos mínimos detalhes, sempre algo lhe escapará, aquela situação de comunicação que ele não conseguiu prever e da qual só os falantes reais conseguem dar conta.

Mas, se criar uma língua do nada já é um desafio, a brincadeira fica ainda mais excitante se a criação se der segundo algum parâmetro. Afinal, uma coisa é inventar uma língua em que se tenha total liberdade para escolher os fonemas, os vocábulos, as estruturas sintáticas; outra, bem diferente, é, digamos, criar uma nova língua românica, um idioma hipotético que, no entanto, deve partir de certos pressupostos: descender do latim vulgar, ser falada, por exemplo, entre a França e a Itália, etc. Isso nos obriga a simular toda a evolução que essa língua teria tido; como cada palavra derivou do latim até ela, quais leis fonéticas regeram as transformações das palavras, que grau de semelhança esse idioma teria com o francês ou o italiano, e assim por diante.

Estabelecidas essas balizas, o jogo se torna ainda mais emocionante, pois, se antes eu jogava segundo regras que eu mesmo inventara, agora devo obedecer a regras preestabelecidas — e não por mim, mas pela realidade. Portanto, agora a criação da língua se assemelha a um jogo de xadrez, em que é preciso calcular todos os lances, e cada movimento executado por uma peça interfere nas demais de forma às vezes imprevisível. A criação dessa língua se torna um belo exercício de lógica, um desafio para pessoas que reúnem duas paixões: as línguas e a matemática.

Imagine agora um desafio maior ainda: criar não uma língua dentro de uma família já existente, mas sim uma nova família de línguas dentro de um grande tronco linguístico. Por exemplo, idealizar um novo grupo de línguas indo-europeias. Esse exercício, sem dúvida, requer um grau ainda maior de habilidade e talento, pois desta vez trata-se de conceber vários idiomas com parentesco entre si, mas cada um com sua individualidade. E como todos descendem de uma língua-mãe que, por sua vez, descende do indo-europeu, é preciso primeiro criar essa língua-mãe (e, consequentemente, as leis fonéticas que levem do indo-europeu a ela) para só então derivar as leis que, a partir dela, gerarão cada língua-filha. Mais ainda, essa língua-mãe, por ser de origem indo-europeia, deverá ter parentesco com o latim, o grego, o germânico, o eslavo, o sânscrito… Em suma, o criador dessa família deve ter grande conhecimento de línguas indo-europeias e linguística histórico-evolutiva.

Mas vamos propor o desafio supremo: suponha que eu queira criar uma família de línguas indo-europeias com base em duas outras que apresentam uma curiosa e inexplicável série de analogias língua a língua. Isto é, imagine duas famílias linguísticas que são como o espelho uma da outra, para cada língua de uma delas havendo uma correspondente na outra família que parece ter-se desenvolvido seguindo regras análogas à primeira. Agora é preciso criar cada língua dessa nova família tendo como modelo as duas línguas-espelho das famílias já existentes. Algo como se, para cada língua a da família A e b da família B, eu criasse uma língua c na hipotética família C. Consequentemente, eu teria que respeitar uma espécie de regra de três: se de a e b obtenho c por uma determinada lei lógica, então de a’ e b’ obtenho c’, de a” e b” obtenho c”, e assim por diante. Lembrando que a criação de cada língua tem de obedecer a leis fonéticas precisas (ainda que hipotéticas) a partir da língua-mãe. E que essa língua-mãe, ou protolíngua, também deve manter relações simétricas com respeito às protolínguas de A e de B.

Mas, supondo que não apenas as línguas das famílias A e B apresentem analogias uma a uma, mas que também os povos que as falam tenham tido desenvolvimentos históricos paralelos, de modo que a história de um seja, grosso modo, um xerox da história do outro, então a brincadeira assume seu grau máximo de dificuldade: recriar, na família hipotética, países dotados de idioma, história, geografia, cultura, etc., tudo sempre obedecendo à regra lógica c está para b assim como b está para a. (Na verdade, o que se deve buscar realmente é a proporção áurea: b está para a assim como c está para o todo. Em outras palavras, a forma hipotética c deve reunir características tanto de a quanto de b.)

Realizar esse exercício lúdico não só ajuda a desenvolver ao extremo a capacidade de raciocínio lógico — é um ótimo passatempo para nerds —, como permite testar até que ponto as analogias entre as famílias A e B são reais: o desafio de encontrar uma forma c que reproduza o mesmo padrão matemático existente entre a e b nos leva a descobrir relações que antes não percebíamos. Se estivermos desconfiados de que esse padrão é casual, podemos fazer um teste: tentar encontrá-lo numa família D, efetivamente existente. Algo como alinhar a, b e d para ver se o padrão se repete. Se é possível encontrar muitos padrões de simetria entre os membros das famílias A e B, mas entre A e D, A e E, A e F, etc., tais padrões são muito raros, ou mesmo inexistentes, então nossa suspeita de que entre A e B há mais do que mera coincidência se transforma em certeza. Cada vez que encontramos uma relação a : b e partimos em busca de uma forma hipotética c, corremos o maravilhoso risco de encontrar uma nova relação a’ :  b’ que nos levará a c’, e assim o ciclo recomeça. Se a isso se pode chamar ciência, então a busca das supersimetrias entre nações e suas línguas é uma atividade que mistura ciência, arte e esporte. Afinal de contas, temos a descoberta, a invenção de países e idiomas, e o jogo com suas regras e seus desafios.

Como se reconhece uma analogia? E como reproduzi-la no momento de inventar uma língua ou um país? Vejamos como isso funciona. Para isso, usemos um exemplo da aritmética: tomemos os pares de números 2-4 e 3-6. Qual a relação existente entre eles? Não é preciso pensar muito para notar que, em ambos os pares, o segundo número é o dobro do primeiro. Portanto, a analogia entre eles é que ambos foram gerados por uma mesma lei aritmética: dado um par de números xy, a regra é que y deve ser o dobro de x (isto é, y = 2x). A partir da descoberta dessa lei, podemos postular uma infinidade de pares numéricos análogos: 1-2, 5-10, 123-246…

Mas há ainda outro aspecto na simetria a ser observado. Se, partindo dos pares 2-4 e 3-6, eu quiser gerar um terceiro par pela mesma lei, que par devo criar? Olhando mais uma vez para os dois pares, noto que o primeiro número do segundo par (3) é igual ao primeiro número do primeiro par (2) mais um (3 = 2 + 1). Em termos simbólicos, se o primeiro par é xy e o segundo, x’y’, então x’ = x + 1. Utilizando essa segunda regra, o terceiro par da série só pode ser 4-8, pois 4 = 3 + 1, ou seja, o primeiro número do terceiro par é igual ao primeiro do segundo par mais um. Temos então a série 2-4, 3-6 e 4-8. Se eu conseguir provar que entre as famílias A e B existe uma grande quantidade de pares de línguas ou de países que obedecem a uma regra e que, aplicando essa regra, eu geraria uma terceira família C, e que essa família C não existe, pois nenhuma das famílias existentes estabelece com A ou com B alguma relação desse tipo, então isso significa que a relação só existe entre A e B e é uma relação consistente e sistemática, não fortuita.

Em termos concretos, se comparo as famílias românica e germânica e detecto entre elas, muitas e muitas vezes, relações que se repetem, e se, ao mesmo tempo, comparo cada uma dessas famílias a outras, como a eslava, a báltica, a indo-irânica, e até mesmo famílias não indo-europeias, como a semita e a sino-tibetana, e não detecto as mesmas relações, muito menos na quantidade em que se encontram entre as famílias românica e germânica, então é bem pouco provável que tudo não passe de mera coincidência. Se entre França e Inglaterra, Itália e Alemanha, Espanha e Suécia, etc., é possível encontrar inúmeras analogias históricas, geográficas, linguísticas e culturais que, ao mesmo tempo, não se encontram entre, digamos, França e Rússia, Itália e Polônia, etc., nem entre Inglaterra e Rússia, Alemanha e Polônia, etc., então posso dizer que há entre as famílias latina e saxônica um conjunto de simetrias que não existem em relação à família eslava.

A simetria entre as duas famílias de povos é tão grande que poderíamos inventar uma terceira família de países cuja história, disposição geográfica e línguas guardassem as mesmas simetrias em relação às famílias latina e germânica que estas guardam entre si. Evidentemente, esse exercício lúdico de criação não teria nenhum propósito prático a não ser o de provar a existência de uma fabulosa especularidade entre os países latinos e os germânicos.

Poderíamos criar para cada par de países-espelho (França e Grã-Bretanha, Itália e Alemanha, etc.) um terceiro país que fosse espelho desses outros dois. Cada um desses hipotéticos países teria uma história análoga à dos países reais — com datas coincidentes ou matematicamente análogas, fatos históricos similares, etc. Esses países fictícios estariam dispostos geograficamente de forma análoga aos países latinos e germânicos (evidentemente, a geografia real da Europa não permite que se introduza uma nova série de países ao norte dos germânicos ou ao sul dos latinos, nem numa posição intermediária entre ambas as famílias). Além disso, os países assim criados teriam idiomas que fossem símiles perfeitos das línguas românicas e germânicas, guardando em relação a essas total analogia, quer na fonética, na fonologia, na morfologia, na sintaxe, no léxico.

Pelo princípio da proporcionalidade, teríamos uma correspondência do seguinte tipo:

Devo confessar uma coisa: de tanto encontrar simetrias entre os povos do Ocidente, acabei por inventar a minha própria família de povos, a que seria a terceira proporcional dos povos latinos e germânicos. Nunca revelei isso a ninguém e, por timidez ou vergonha, não pretendo fazê-lo (talvez depois que eu morrer isso possa vir a lume). Mas o fato é que essa família tem nome, cada país tem sua história, sua língua (ou línguas), sua geografia (foi difícil encaixá-los no mapa, ainda mais respeitando tanto quanto possível o território dos países que existem de verdade e, sobretudo, obedecendo às leis da supersimetria), sua cultura… Comecei por brincadeira, ainda na adolescência, e venho fazendo isso desde então. Tenho acumulados inúmeros cadernos com anotações e outro tanto de arquivos de computador. Nesse material há de tudo: mapas, desenhos, esboços, biografias, listas cronológicas de monarcas, descrições meticulosas de línguas, que incluem fonética, fonologia, morfologia, vocabulário, sintaxe…

De mero exercício lúdico, esse passatempo se tornou aos poucos uma forma de testar hipóteses científicas. A cada nova descoberta de uma simetria entre países ocidentais, lá vou eu tentar criar um fato análogo no meu mundo imaginário. Às vezes, isso toma muito tempo e exige grande poder de concentração e reflexão. Às vezes levo dias, semanas para achar a solução. Nem sempre acho. (Muitas questões ficam pendentes e só muito tempo depois se resolvem — ou não.) De todo modo, a descoberta dessa solução é tão gratificante quanto para um poeta encontrar a rima que caiba naquele verso, tão gratificante quanto para um matemático conseguir provar um teorema. Sendo que, neste caso, a solução tem algo de poesia e de matemática ao mesmo tempo. Afinal, deve enquadrar-se em padrões que, ao fim e ao cabo, são matemáticos. Por outro lado, essa solução pressupõe também uma forte dose de criatividade: criação de uma palavra ou de uma regra gramatical, estabelecimento de uma data para um fato histórico, idealização dos personagens desse fato histórico (nome, biografia). E se, num primeiro momento, por desconhecimento de alguma relação oculta, crio algo de maneira arbitrária, posso ter de rever essa criação tempos depois, já que um novo padrão de simetria se revelou e deve ser aplicado aos fatos fictícios anteriormente criados. Eis por que as analogias entre os povos românicos e os germânicos são tão intrincadas que, por vezes, não há uma terceira forma disponível, pois as duas únicas possíveis são exatamente as adotadas por cada uma das famílias. Assim, só me resta repetir uma das duas. Por exemplo, se num dado aspecto a família românica apresenta uma configuração AB e a germânica, BA, qualquer outra combinação (AA, BB, AC, etc.) fugiria ao espelhamento, portanto a minha família inventada terá de ser AB ou BA. No entanto, o critério de escolha também segue um padrão: se nesse dado aspecto ela é AB, em outro deverá ser BA, para manter o equilíbrio. Além disso, certas características, uma vez definidas, devem ser mantidas sempre. Se as línguas românicas tendem a deslocar o acento tônico para o fim da palavra, e as germânicas, para o começo, então ou as línguas que inventei seguem o padrão românico ou o germânico — não é possível misturar ambos.

Mas como a supersimetria não atinge somente países e povos, também descobri analogias entre pessoas — personagens históricos, bandas de rock, celebridades do mundo pop, estadistas — e em muitos casos me permiti deixar a imaginação entrar em cena e criar um terceiro seguindo a regra transitiva segundo a qual a está para b assim como b está para c. Parece coisa de louco? Talvez seja. Por isso mesmo, não mostro isso a ninguém, nem sob tortura. Mas esse exercício de criação ficcional paralelo ao meu trabalho de pesquisa tem sido muito gratificante, além de uma excelente higiene mental para alguém que não se satisfaz com passatempos banais, como ver programas de auditório na TV (a não ser de vez em quando, para relaxar, que ninguém é de ferro!).

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