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SUPERSINCRONICIDADE NAS LÍNGUAS: IDIOMAS E DIALETOS

Português-galego x norueguês-neonorueguês

Rigorosamente falando, português e galego são dialetos da mesma língua. Eles têm uma origem comum no galaico-português ou antigo galego, língua falada no noroeste da Ibéria até o século XIV.[1] Depois disso, houve uma cisão, em que a língua do território da Galícia, ao norte, anexado pela Espanha em 1230, sofreu grande influência do espanhol, e a língua mais ao sul (Reino de Portugal) se transformou no português. Este se tornou língua nacional de Portugal e sempre teve vida autônoma. Já a língua do norte, o galego, sobreviveu durante séculos apenas como dialeto e só no século XIX, mais precisamente a partir de 1833, com o movimento nacionalista chamado Rexurdimento (Ressurgimento), reassumiu a plenitude como idioma literário. Depois de ser reprimido pelo regime franquista, foi reconhecido como um dos idiomas oficiais da Espanha. No entanto, alguns autores[2] consideram que a língua falada no noroeste da Península Ibérica desde o princípio foi o galego e que o português seria então uma derivação deste.

Da mesma maneira, bokmål e nynorsk são dialetos do norueguês, que têm origem na mesma língua ancestral, o norreno, ou antigo nórdico.[3] Com a anexação da Noruega pela Dinamarca de 1380 a 1814, o norueguês sofreu grande influência dinamarquesa, passando a ser chamado de dano-norueguês, riksmål (língua do reino) ou bokmål (língua dos livros). Enquanto isso, o norueguês falado no interior (landsmål, “língua do campo”) manteve características próprias, mas permaneceu durante séculos apenas como um conjunto de dialetos. No século XIX, em meio a uma onda de nacionalismo, o linguista Ivar Aasen criou em 1853, sobre a base do landsmål, o novo norueguês, neonorueguês ou nynorsk. Hoje, ambas as línguas, bokmål e nynorsk, são oficiais na Noruega.

E, exatamente como ocorre no caso do galego-português, há autores que chamam o norreno de antigo islandês ou antigo norueguês; portanto, assim como o galego seria mais antigo do que o próprio português, o norreno é mais antigo do que o norueguês, que dele descende.

Assim, pode-se dizer que no princípio havia apenas o antigo galego e o antigo norueguês. No centro-sul de Portugal, o galego, talvez por influência dos dialetos moçárabes do sul da península, evoluiu para o português. E, no centro-sul da Noruega, o norueguês sofreu a influência do dinamarquês e evoluiu para o dano-norueguês, ou bokmål. Enquanto isso, o antigo galego e o antigo norueguês ficaram relegados por séculos à condição de línguas rurais, sem escrita, faladas apenas em ambiente doméstico. No século XIX, ambas ressurgem como línguas literárias, o galego moderno e o neonorueguês. Note as datas do ressurgimento do galego e do nynorsk: 1833 e 1853, respectivamente.

Assim como o português, o norueguês tem duas ortografias, a bokmål e a riksmål. E, assim como o português, que fez sua unificação ortográfica em 2009, o norueguês procurou unificar a grafia na reforma de 2005. Mas a grande reforma ortográfica do português, que abandonou a escrita etimológica, ocorreu em 1911, um ano após a proclamação da república em Portugal. E a grande reforma do norueguês, que  o afastou da grafia dinamarquesa, se deu em 1907, dois anos após a independência da Noruega.

Assim como há duas variedades de galego — a tradicional (ou isolacionista) e a reintegracionista —, das quais a primeira é a oficial e mais difundida, há também duas variedades de neonorueguês, o nynorsk e o høgnorsk, sendo a primeira reconhecida como oficial e a mais difundida. Aliás, a principal diferença tanto entre os dois tipos de galego quanto de neonorueguês é a ortografia, pois o galego tradicional adota um sistema de inspiração espanhola e o reintegracionista, de inspiração portuguesa, bem como o høgnorsk, mais tradicional, rejeitou as reformas de 1917.

Para tornar ainda mais evidente o paralelismo entre essas línguas, veja o seguinte diagrama:

Uma curiosidade: a Noruega é chamada de Norge em norueguês bokmål e de Noreg em neonorueguês. Em uma determinada região de Portugal fala-se uma língua próxima ao português (na verdade, um dialeto dele) chamada mirandês. Assim, o país também tem dois nomes: chama-se Portugal em português e Pertual em mirandês.

Ambas as línguas, galego e neonorueguês, são desdobramentos de uma única — o galego é tido por muitos como dialeto do português, e o nynorsk, do norueguês, embora, como eu disse, o galego seja mais antigo que o português, assim como o riksmål, base do neonorueguês, é mais antigo que o bokmål. Ambas floresceram na Idade Média e, entre os séculos XIV e XIX, passaram por um período de obscuridade. Ambas ressurgiram por obra de intelectuais e por meio de movimentos nacionalistas. Ambas são idiomas cooficiais em seus países e ambas apresentam duas variedades, uma oficial e outra não. Por outro lado, enquanto, do lado românico, o galego sofreu grande influência espanhola, do lado germânico, foi o norueguês bokmål que sofreu a influência do dinamarquês.[4]

Aliás, por razões políticas, o espanhol, isto é, o castelhano, foi a língua de cultura em toda a Península Ibérica do século XV ao XVII, sendo amplamente falado em Portugal e na Catalunha e tendo alimentado esses idiomas com seu vocabulário, ao qual os latinismos e galicismos chegavam primeiro. Pelas mesmas razões, o dinamarquês foi a língua dominante na Escandinávia mais ou menos no mesmo período, tendo influenciado o léxico e a ortografia das demais línguas da península.

Vale notar ainda que a mesma polêmica que disputa se o português e o galego são dois idiomas distintos ou duas variedades do mesmo idioma também afeta o norueguês em face do neonorueguês.

Em resumo, havia na Península Ibérica entre os séculos V e XI um desdobramento do latim vulgar chamado de ibero-romance, cujo ramo ocidental incluía o galego-português, o asturo-leonês e o castelhano, e cujo ramo oriental era formado pelo aragonês e pelo catalão. O galego-português manteve sua unidade até o século XIV, quando a língua do Reino de Portugal se distanciou do galego, assumindo feição própria, e o galego perdeu seu prestígio como língua autônoma e sofreu grande influência do castelhano com a anexação da Galícia ao Reino de Castela (posteriormente Reino da Espanha), permanecendo por séculos como língua rural, só vindo a ressurgir como idioma literário no século XIX.

Analogamente, houve na Escandinávia do século V ao XI uma língua descendente do germânico comum chamada de germânico setentrional ou protonórdico, igualmente dividida em um ramo ocidental (norueguês e islandês) e um oriental (sueco e dinamarquês). O ramo ocidental, ou norreno, manteve-se unido até o século XIV, quando a Noruega passou ao domínio da Dinamarca, surgindo daí um norueguês riksmål, depois chamado de bokmål, bastante influenciado pelo dinamarquês, e um norueguês landsmål, língua da população rural, que só ressurgiu como idioma literário (o nynorsk ou neonorueguês) no século XIX.

Esquematicamente temos:

Como se pode ver no diagrama acima, as línguas ibéricas e as escandinavas têm histórias absolutamente paralelas.

Romeno x islandês

O romeno e o islandês se desenvolveram, ambos, de forma isolada, o que explica o seu caráter original e arcaico. Por exemplo, ambos apresentam artigo definido posposto ao nome, flexão de casos, vocabulário peculiar, etc.

Enquanto o islandês resultou da colonização da Islândia pelos vikings escandinavos, o romeno é produto da colonização da Dácia (atual Romênia, sudoeste europeu) por legionários romanos da Ibéria. Como resultado, o romeno compartilha com as línguas ibéricas certas características, sobretudo lexicais, assim como o islandês forma com as línguas da Escandinávia uma subfamília do germânico (veja os quadros abaixo).

O romeno ficou isolado pela interposição de turcos e eslavos, que ocuparam os territórios intermediários entre a Dácia e o restante do Império Romano, interrompendo a continuidade geográfica e linguística da família românica. Já o islandês se viu isolado desde o início pelo mar (a Islândia é uma ilha no extremo noroeste da Europa), isolamento este agravado após o fim do intercâmbio com a Escandinávia, terminada a era viking.

Ambos os países, Romênia e Islândia, ficam em posições geográficas extremas e longe de suas respectivas famílias; ambos mantiveram ao longo da história pouco contato com outras nações ocidentais. Por isso mesmo, ambos os idiomas têm vocabulário diferenciado, com termos inusuais em outras línguas. O romeno tem muitas palavras de origem grega, eslava, turca, albanesa, etc. O islandês tem por norma traduzir os termos de origem estrangeira. Por exemplo, “telefone” em islandês é simi.

Outra característica que aproxima ambos os idiomas é o grande número de irregularidades: são duas línguas difíceis de aprender devido à profusão de paradigmas de flexão e de exceções às regras. A falta de uma normatização gramatical mais rígida, que poderia ter amenizado as irregularidades, revela bem o caráter arcaico das duas línguas, pois originalmente todos os idiomas apresentavam muitas anomalias; posteriormente, a regularização das formas foi promovida sobretudo por um esforço intelectual de escritores, gramáticos e demais falantes cultos.

__________

[1] O período galaico-português vai de 1170 a 1385.

[2] VENÂNCIO, Fernando. Assim nasceu uma língua: sobre as origens do português. São Paulo: Tinta-da-China Brasil, 2024.

[3] O período norreno vai de 1050 a 1350.

[4] Para mais informações, leia Dous padrões para a mesma língua: Noruega e Galiza, de Paulo Gamalho, disponível em  https://pgl.gal/dous-padroes-para-a-mesma-lingua-noruega-e-galiza.

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