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SUPERSINCRONICIDADE NAS LÍNGUAS: IDIOMAS E DIALETOS

Correspondências entre as línguas românicas e as germânicas

Temos, em resumo, dez idiomas românicos (português, galego, espanhol, catalão, occitano, francês, veneziano, italiano, romanche e romeno) e dez germânicos (norueguês, neonorueguês, sueco, dinamarquês, escocês, inglês, holandês, alemão, luxemburguês e islandês).

Observação: se considerarmos que alguns desses idiomas se encontram em decadência, sufocados pelas línguas majoritárias de seus países, teremos, na verdade, sete idiomas românicos (português, galego, espanhol, catalão, francês, italiano, romeno) e sete germânicos (inglês, holandês, alemão, dinamarquês, sueco, norueguês e islandês).

A tese que defendo aqui é que existe uma correspondência um a um entre os idiomas de uma família e os da outra. A especularidade entre essas línguas, assim como entre seus países, constitui um fenômeno único no planeta, em toda a história: nada semelhante se verifica entre quaisquer outras famílias de povos, países ou línguas. Por que isso ocorre justamente na Civilização Ocidental, especialmente em seu núcleo europeu, não sei dizer. Em todo caso, como a demonstração dessa especularidade será feita em outros artigos, por ora me limito a apresentar a rede de correspondências entre as línguas, que é a seguinte:

Também entre os semi-idiomas (dialetos e línguas crioulas) é possível estabelecer uma correspondência especular. Na maioria dos casos, trata-se de uma correspondência muito mais geográfica do que propriamente linguística, embora também seja possível às vezes encontrar analogias entre as línguas. Mas, por serem poucas, é preciso ter cuidado para não confundir espelhamento resultante de sincronicidade com mera coincidência. As correspondências seriam então as seguintes:

Em certos aspectos pontuais, uma língua pode apresentar relações de analogia com outra que não seja o seu espelho. Por exemplo, o romeno, espelho do islandês, tem ao mesmo tempo algumas características do holandês. Do outro lado, o espanhol, embora faça par com o sueco, tem certas características similares às do inglês (antes que o leitor ache absurda essa afirmação, prometo oportunamente publicar um artigo específico sobre este ponto). O inglês é o espelho do francês, mas também tem características simétricas ao italiano, assim como o alemão, espelho do italiano, tem características simétricas com o francês. Essas quatro línguas estabelecem assim relações verticais e diagonais.

Aqui cabe estabelecer uma gradação entre as formas de espelhamento. Duas línguas podem ter entre si semelhanças e/ou analogias de natureza sincronística[1], tanto em relação à sua história (interna e externa) quanto à sua estrutura (fonética, fonológica, morfológica, sintática, léxica, ortográfica). Por história interna da língua entendemos a evolução temporal do sistema linguístico; já a história externa da língua é, em grande parte, a história dos povos que a falam, sobretudo em relação a eventos que tenham determinado mudanças no curso da evolução linguística, como invasões estrangeiras, anexações territoriais, influências culturais externas, etc.

Desse ponto de vista, teríamos três situações:

  • espelhamento forte: muitas sincronicidades tanto na história quanto na estrutura da língua;
  • espelhamento médio: muitas sincronicidades na história, mas poucas na estrutura da língua, ou poucas sincronicidades na história, mas muitas na estrutura da língua;
  • espelhamento fraco: poucas sincronicidades tanto na história quanto na estrutura da língua, ou muitas sincronicidades na história, mas quase nenhuma na estrutura da língua.

Por exemplo, o espelhamento entre o francês e o inglês, ou entre o italiano e o alemão, é forte. Entre as línguas ibéricas e as escandinavas há muitas simetrias históricas, mas estruturalmente os pontos em comum são menos frequentes e menos evidentes do que nas quatro línguas citadas. Já entre o veneziano e o holandês há muitas sincronicidades históricas (analogias entre a história e geografia do Vêneto e dos Países Baixos, bem como suas proximidades relativas em relação ao italiano e ao alemão, respectivamente), mas poucas analogias estruturais.

Portanto, cada família tem dez idiomas, dos quais seis tem um único e inequívoco idioma-espelho, e os restantes têm mais de um.

Representando a relação especular forte por meio de uma flecha contínua,  a média por uma flecha tracejada e a fraca por uma pontilhada, a correspondência seria esta:

Chamarei aqui de línguas centrais (dentro do retângulo no diagrama acima) as quatro línguas que têm espelhamentos fortes verticais e médios diagonais (francês, italiano, inglês e alemão). Essas línguas são, por sinal, os idiomas das quatro nações nucleares da Civilização Europeia: França, Itália, Grã-Bretanha e Áustria-Alemanha (veja Algumas evidências geográficas da supersincronicidade). Sobre as relações verticais e diagonais entre esses idiomas, confira a seção A simetria invertida das línguas ocidentais, mais adiante. Os demais idiomas, bem como as nações de que são originários, serão chamados de periféricos.

Também é possível estabelecer correspondências entre os dialetos que, por sua importância, podem vir a tornar-se idiomas (alguns já reivindicam isso). Por exemplo, o sardo, língua tão arcaica quanto o romeno, é falado na ilha da Sardenha, no Mar Mediterrâneo; paralelamente, o faroês, de características próximas às do islandês, é falado nas ilhas Faroé, no Mar do Norte. (Temos aqui uma analogia linguística e também geográfica.)

A Itália está linguisticamente dividida em duas regiões dialetais, a Alta Itália e a Baixa Itália, pela linha imaginária La Spezia-Rimini, assim chamada porque liga essas duas cidades e separa o norte do sul. A área entre essa linha e outra, a Massa-Senigallia, mais ao sul, marca a transição entre as duas Itálias. Os dialetos alto-italianos têm características fonéticas mais próximas do francês e das línguas ibéricas, enquanto os baixo-italianos se aproximam mais do romeno. O mais famoso dialeto italiano é o napolitano (na Baixa Itália).

Similarmente, a Alemanha divide-se em Alta Alemanha e Baixa Alemanha. Duas linhas cortam o território alemão: a linha Speyer[2] e a linha Benrath. A norte da primeira, está a área do baixo alemão; a sul da segunda, a área do alto alemão; entre as duas, a zona de transição. O principal dialeto do país é o baixo alemão, falado ao norte. Apesar do nome, foneticamente o baixo alemão se parece mais com o inglês e o holandês.

O italiano e o alemão têm variedades dialetais no Novo Mundo, resultantes da colonização por imigrantes no século XIX. O italiano apresenta o talian, ou vêneto rio-grandense, no Sul do Brasil (note que, embora atualmente o veneziano seja reconhecido como idioma, o talian é visto como dialeto italiano) e na região de Chipilo, México; o alemão tem o Hunsrückisch, ou Riograndenser, igualmente no Sul do Brasil, e o alemão da Pensilvânia nos Estados Unidos.[3]

Como a região da Venécia, na Itália, tem muitas características em comum com a Holanda (Veneza e Amsterdã são cidades entre canais, tanto que esta é chamada de “Veneza do Norte”[4]; ambas as regiões tiveram no passado vocação marítima; Veneza foi uma rica república de comerciantes posteriormente anexada à Itália, enquanto a Holanda era uma província alemã que depois se tornou uma rica república de comerciantes — todas essas analogias serão tratadas em artigo próprio, sobre geografia), faz sentido estabelecer uma correspondência linguística entre o holandês e o vêneto, assim como entre o frísio e o friulano, embora sejam correspondências fracas, isto é, baseadas num número menos abundante de coincidências do que nos demais casos.

Vale a pena, em todo caso, mencionar aqui uma característica comum entre o veneziano e o holandês: o grupo sch, que em alemão constitui um único fonema [ʃ], soa em holandês como dois: [sx] (ou seja, essa língua pronuncia separadamente s e ch); igualmente, o grupo sc soa como [ʃ] em italiano, mas como [stʃ] em veneziano, o que indica analogamente a pronúncia separada de s e c (em algumas palavras, o veneziano chega a grafar s-c em lugar de sc).

Ao sul da França, na região limítrofe com a Occitânia, encontra-se o franco-provençal; a noroeste, na Bretanha (também chamada de Pequena-Bretanha) e Cornualha francesa, fala-se o bretão, que pertence à família céltica. Ao norte da Grã-Bretanha, na Escócia, existem o escocês e o gaélico, este língua céltica; a sudoeste (Gales e Cornualha inglesa) falam-se respectivamente o galês e o córnico, ambos célticos.

A região da Provença, ao sul da França, tem muitas características em comum com a Escócia, norte da Grã-Bretanha. Além de serem ambas regiões mais rurais (e famosas por suas paisagens campestres), têm línguas e culturas diferenciadas, o que tem gerado, de tempos em tempos, movimentos autonomistas ou separatistas. Na verdade, ambas as regiões foram tardiamente anexadas a seus respectivos países, o que tem mantido acesa uma certa chama de nacionalismo.

Em relação às línguas da França e Grã-Bretanha, temos uma imagem invertida: occitano ao sul, escocês ao norte; bretão ao noroeste, galês/córnico a sudoeste. Confira a ilustração.

Fonte: www.eurominority.org

Pode-se dizer que os idiomas ibéricos são muito mais próximos entre si do que das demais línguas românicas. Com efeito, um português, um galego e um espanhol compreendem-se perfeitamente (o catalão está mais distante dos três). Os idiomas escandinavos também estão mais próximos entre eles do que dos outros membros da família. E, analogamente, o sueco é mais inteligível ao norueguês e ao neonorueguês do que ao dinamarquês. Tanto as línguas ibéricas quanto as escandinavas são tecnicamente dialetos de uma mesma língua (o romance ibérico ou ibero-romance e o norreno, ou antigo nórdico, respectivamente) que, por motivos históricos e políticos, assumiram o papel de idiomas nacionais.

O ibero-romance se dividia em ocidental (que deu origem ao antigo galego, também chamado de galego-português ou galaico-português, ao castelhano e ao asturo-leonês) e oriental, que originou o aragonês e o catalão. Similarmente, o norreno dividia-se em ocidental (do qual saíram o norueguês, o faroês e o islandês) e oriental (sueco e dinamarquês).

Finalmente, é evidente a relação entre o ladino e o iídiche, ambas línguas veiculares da comunidade judaica. O nome ladino deriva do espanhol e quer dizer “latino”; iídiche, resultante do al. jüdisch, quer dizer “judeu”.

__________

[1] Isto é, mais numerosas do que seria esperável se se tratasse de mero acaso ou resultado de causas conhecidas e corriqueiras, como parentesco ou mútua influência.

[2] Pode ser mera coincidência, mas o nome Speyer lembra Spezia, não?

[3] Um esclarecimento: alguns autores utilizam a denominação talian não só para o dialeto falado no Sul do Brasil, mas também para designar o próprio idioma veneziano. Nesse caso, fazem o mesmo que os falantes de inglês ao chamarem o holandês de Dutch, que quer dizer literalmente “alemão”. Aliás, assim como talian é uma corruptela de “italiano”, Dutch provém de Deutsch, “alemão”. E assim como o termo talian designa não o italiano e sim o veneziano, o Pennsylvania Dutch não é um dialeto do holandês falado nos Estados Unidos, mas um dialeto do alemão.

[4] Uma curiosidade adicional: cercadas de canais e situadas no litoral, ambas as cidades sofrem a ameaça da invasão das águas do mar. Por isso, o terreno onde se situa Amsterdã, que fica abaixo do nível do mar, foi há muitos séculos cercado por diques. Veneza, que já sente as consequências da elevação das águas marítimas devida ao aquecimento global, também já está construindo diques.

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