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SUPERSINCRONICIDADE NAS LÍNGUAS: IDIOMAS E DIALETOS

Fonte: www.eurominority.org

Todo sistema de comunicação humana formado de palavras e de uma gramática é uma língua. Não importa se falada por milhões ou por algumas dezenas de pessoas, não importa se com longa tradição literária ou só usada oralmente, não importa se empregada em situações solenes ou só em bate-papos informais. No entanto, é comum a divisão, muito mais política do que linguística, das línguas em idiomas (também chamados de línguas literárias, línguas de cultura ou línguas de civilização) e dialetos. É bem verdade que muitos empregam o termo “idioma” como sinônimo de língua. Eu mesmo faço isso frequentemente, por razões de simplicidade (aliás, o português não oferece muitos sinônimos para a palavra “língua”). Mas, antes de falarmos sobre as línguas românicas e germânicas e suas simetrias (isto é, sobre os idiomas dessas famílias e seus dialetos), é bom definirmos o que seja idioma e dialeto. Como veremos, as analogias entre as duas famílias se dão idioma por idioma e também entre dialetos.

Idioma é uma língua de uso corrente dotada de expressão escrita em nível formal e uso sistemático na comunicação diária, nas relações de trabalho e comércio, em documentos oficiais, nas comunicações de massa (livros, jornais, revistas, rádio, TV, internet), não restrito a um pequeno número de localidades e, acima de tudo, expressando um sentimento de identidade étnica ou nacional por parte dos falantes, independentemente de ser ou não oficialmente reconhecida. Trocando em miúdos, um idioma é uma língua falada pela totalidade ou por ampla parcela da população de um país, que não apenas produz textos escritos, mas textos de grande importância social, seja porque têm larga difusão, seja porque têm caráter formal, solene ou oficial.

Já dialeto é uma língua de uso corrente, dotada ou não de expressão escrita, mas sem tradição literária, independentemente de ser ou não oficialmente reconhecida. Um dialeto se fala em casa, com os amigos, nele se podem escrever poemas e canções populares, e por vezes os mais velhos e os menos letrados o têm por única língua. De todo modo, dado o seu caráter informal, o dialeto não produz textos “importantes”. Além disso, é sempre falado por uma minoria da população, e esta em geral sabe falar também o idioma dominante no país. É nesse idioma que essa minoria se expressa em situações formais. Pode até ocorrer de um ou vários dialetos serem falados pela maioria da população, mas, mesmo assim, esse dialeto mantém o caráter de língua informal e doméstica.

Como decorrência natural dessa distinção, os idiomas são normatizados, o que significa que, além de uma expressão popular, eles têm uma norma culta, em geral regulamentada por uma academia.

Todo idioma nasceu como dialeto e, com o tempo, graças à importância política, econômica ou cultural da comunidade que o falava, tornou-se língua de prestígio e de Estado. Algumas línguas ocidentais tornaram-se idiomas ainda na Idade Média; outras só recentemente; algumas ainda lutam por ser reconhecidas como tal; e, finalmente, muitas têm-se mantido apenas como dialetos.

Por isso, poderíamos admitir uma terceira categoria, intermediária entre o idioma e o dialeto: seria o semi-idioma, uma língua que tem expressão escrita formal, mas cujo uso é restrito a certos tipos de textos. Por exemplo, pode haver vários sites nessa língua, e mesmo uma versão inteira da Wikipédia, mas não livros impressos, jornais, revistas, programas de rádio ou TV, nem a legislação permite que documentos oficiais sejam nele redigidos.

Os semi-idiomas tornaram-se frequentes após o advento da internet, pois vários dialetos, línguas regionais e minoritárias (veja abaixo) passaram a produzir documentos em formato digital, para isso adotando uma norma ortográfica.

Em resumo, língua é fato linguístico, idioma e dialeto são fatos políticos. Como bem disse o linguista Max Weinreich, “um idioma é um dialeto com um exército e uma marinha”.

O que caracteriza um idioma é a sua expressão escrita sistemática, isto é, uma produção significativa de livros, jornais, revistas, sites, documentos oficiais, emissões radiofônicas e televisivas, etc., o que, evidentemente, pressupõe que a língua em questão seja utilizada também na fala de um contingente populacional representativo, pois um falar restrito a um pequeno grupo de aldeias dificilmente produziria farta literatura. (O que estou chamando aqui de literatura é o conjunto dos textos escritos de caráter formal, portanto não se restringe à literatura de ficção — romances, contos, etc.) Além disso, uma língua literária — e, portanto, de cultura — é, antes de tudo, língua nativa de algum povo e, como tal, falada no dia a dia desse povo. Portanto, uma língua não precisa ser reconhecida oficialmente por nenhum governo para ser um idioma.

Por outro lado, um dialeto, ainda que seja falado por muitos indivíduos num extenso território, não é idioma porque só tem expressão oral ou expressão escrita não formal, como, por exemplo, o napolitano, que só se escreve em tabuletas nas fachadas das cantinas ou nas letras das canzoni. Pela mesma razão, também se costuma chamar dialetos as línguas nativas da África, Ásia e América em relação às línguas europeias dos colonizadores dessas regiões. No entanto, hoje em dia os manuais de linguística e catálogos de dialetologia as classificam como línguas regionais ou minoritárias.

Podemos, em resumo, adotar os critérios a seguir para definir uma língua como idioma e assim distingui-la de seus dialetos. Uma língua será então considerada um idioma se atender a pelo menos um dos seguintes critérios:

1) é reconhecida pelo governo de um país como língua oficial ou cooficial;

2) tem longa tradição literária, isto é, de produção tanto de textos de ficção (poemas, contos, romances) quanto de textos formais de não ficção (documentos oficiais, textos técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, religiosos, etc.);

3) é falada correntemente no dia a dia, não só em situações domésticas e informais, mas também e sobretudo em interações sociais públicas (de trabalho, comércio, entre vizinhos e mesmo entre desconhecidos).

Línguas e dialetos românicos

Se pensarmos apenas em termos de línguas que têm caráter oficial e longa história de produção literária, concluiremos que há apenas cinco idiomas românicos ou neolatinos: português, espanhol (também chamado de castelhano), francês, italiano e romeno. Por outro lado, estudos científicos na área da filologia românica reconhecem dezenas de línguas dentro do âmbito chamado pelos especialistas de România. Aplicando o critério acima definido para distinguir idioma de dialeto, resultará que, além das cinco línguas citadas, também são idiomas o catalão, o galego, o occitano (ou provençal), o veneziano (ou vêneto) e o romanche (ou rético). Catalão, galego, occitano e veneziano são línguas que tiveram grande importância na Idade Média. Em catalão se expressou o grande místico Ramón Llull, além de vários poetas trovadorescos; o galego, inicialmente sob a forma de galaico-português, é a língua das cantigas que marcam os primórdios da literatura portuguesa e, portanto, a língua que origina tanto o português quanto o galego moderno; o provençal foi uma língua importantíssima pela produção poética de seus trovadores e menestréis, produção essa que influenciou toda a literatura europeia no período medieval. Por fim, o veneziano teve grande prestígio à época da República de Veneza, conhecida como A Sereníssima (séculos IX-XVIII), chegando a ser lingua franca no Mediterrâneo ao tempo das Cruzadas.

Posteriormente, essas línguas declinaram de importância na medida em que os territórios em que eram faladas foram subjugados politicamente: a Galícia e a Catalunha pela Espanha em fins do século XV; a Provença pela França por volta da mesma época; a Venécia anexada primeiramente à Áustria e depois à Itália. Só a partir do século XIX e sobretudo no século XX voltaram a gozar do status de línguas literárias.

Em sentido contrário, o romanche, por muitos séculos considerado um mero dialeto italiano, vem crescendo em importância na medida em que se tornou um dos quatro idiomas oficiais da Suíça em 1938.

São muitos os dialetos românicos, mas os mais importantes a ser citados são: o napolitano (baixo italiano), o friulano e o sardo na Itália; o franco-provençal na França; o asturiano, o andaluz e o valenciano na Espanha; e o mirandês em Portugal. Há ainda uma língua utilizada pelos judeus da Península Ibérica chamada ladino, que se parece muito com o próprio espanhol (a rigor, é um espanhol adaptado pela colônia judaica da Ibéria).

Outro aspecto a ser destacado é que vários desses idiomas são falados em mais de um país, dentro ou fora da Europa (idiomas transnacionais), e em alguns casos se desenvolve em cada país uma variedade diferente do idioma, como no caso do português lusitano e brasileiro. Tratarei deste ponto mais adiante.

Finalmente, a expansão colonial europeia fez com que idiomas europeus se tornassem línguas oficiais de países fora da Europa (isto é, das Américas, Ásia, África e Oceania). Os idiomas românicos transcontinentais são o português, o espanhol e o francês.

A colonização também fez com que esses idiomas servissem de base para a formação de línguas crioulas, isto é, resultantes do contato linguístico de dois ou mais povos de línguas diferentes. As línguas crioulas, faladas fora da Europa, têm base lexical de alguma língua europeia e gramática e fonética simplificadas.

No âmbito românico, são dignos de menção por serem idiomas cooficiais em seus países: o crioulo haitiano, ou créole, de base francesa, no Haiti, o cabo-verdiano em Cabo Verde, e o papiamento, nas Antilhas Holandesas, ambos de base portuguesa. Não há crioulos de base espanhola.

Línguas e dialetos germânicos

Segundo os mesmos critérios de tradição literária e reconhecimento oficial, haveria sete idiomas germânicos: inglês, holandês (ou neerlandês), alemão, dinamarquês, sueco, norueguês (também chamado de bokmål) e islandês. No entanto, há mais três línguas com status de idioma: o escocês, o luxemburguês e o neonorueguês, ou nynorsk. Este último teve grande vitalidade na Idade Média, quando era conhecido como landsmål (língua do interior), por oposição à língua da corte, o riksmål (língua do reino). Ambas produziram literatura, até que o riksmål, influenciado pelo dinamarquês (a Noruega foi anexada à Dinamarca em fins do século XIV), tornou-se o dano-norueguês, ou bokmål (língua literária). O landsmål ressurgiria no século XIX como neonorueguês. Falarei mais detalhadamente sobre todo esse processo mais adiante, até porque a evolução do norueguês-neonorueguês apresenta uma série de especularidades em relação ao português-galego.

O escocês (Scots) é falado na Escócia (Grã-Bretanha) e já foi língua oficial do antigo Reino da Escócia. O luxemburguês, originalmente um dialeto alto-alemão falado no Grão-Ducado de Luxemburgo, é reconhecido como língua oficial (ao lado do próprio alemão e do francês) desde 1984.

É preciso dizer que, enquanto o galego, o catalão, o romanche e o neonorueguês são idiomas em ascensão, o occitano, o veneziano e o escocês estão atualmente em decadência, perdendo espaço respectivamente para o francês, italiano e inglês. De certa forma, isso os coloca no patamar dos semi-idiomas.

Dentre os dialetos germânicos mais importantes há que contar o baixo alemão na Alemanha, o frísio ou frisão na Holanda, o faroês na Dinamarca, e o østnorsk e o høgnorsk na Noruega. Há ainda a língua dos judeus alemães, o iídiche, cuja base é o próprio alemão.

Os idiomas transcontinentais germânicos são o inglês, o holandês e o dinamarquês.

Dentre as línguas crioulas germânicas com status cooficial em seus países estão: o crioulo jamaicano, ou patois, de base inglesa, na Jamaica; o sranan tongo no Suriname e o africâner na África do Sul, ambos de base holandesa. Não existem crioulos de base dinamarquesa.

Pontos dignos de nota:

  • Assim como o occitano foi a mais importante língua literária românica da Idade Média, o islandês representou esse papel no âmbito germânico. Hoje, ambos os idiomas ocupam uma posição periférica na cultura ocidental.
  • Das seis línguas coloniais (três de cada família), duas (uma de cada família) não produziram línguas crioulas: o espanhol e o dinamarquês.
  • Dos três crioulos de cada família com status de idioma cooficial, dois têm por base uma língua (português ou holandês) e um tem por base outra (francês ou inglês); além disso, dois são falados na América e um na África.

Divisões dialetológicas das línguas românicas e germânicas

Por coincidência ou quem sabe sincronicidade, tanto a família românica quanto a germânica de línguas são divididas pelos linguistas em três ramos ou subgrupos: ocidental, oriental e setentrional. O principal critério para essa divisão é o filogenético, isto é, a posição de cada língua na árvore genealógica da família, mas características fonéticas específicas também são levadas em conta. No caso românico, fazem parte do ramo ocidental as línguas ibéricas (português, galego, espanhol, catalão), o occitano, o veneziano e o romanche; do ramo oriental fazem parte o italiano e o romeno; e o ramo setentrional é representado apenas pelo francês. Na verdade, haveria apenas dois grandes grupos: um oriental, cuja característica fonética principal é a conservação das consoantes oclusivas do latim (p, t, c, b, d, g), e um norte-ocidental, que altera essas consoantes. No entanto, como o francês as alterou de modo diferente do das demais línguas do grupo, considera-se que o chamado grupo norte-ocidental se subdivide em setentrional e ocidental.

Pois não é que a família germânica se divide exatamente da mesma maneira? Havia no passado um ramo oriental, cuja única língua atestada é o gótico (já extinto), e um ramo norte-ocidental, que se divide em setentrional (línguas escandinavas — norueguês, neonorueguês, sueco e dinamarquês — mais o islandês) e ocidental (inglês, escocês, holandês, alemão, luxemburguês).

Tanto o ramo setentrional românico quanto o oriental germânico se constituem de uma única língua (francês e gótico, respectivamente).

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