Por Fabio Akita
(Disponível em www.akitaonrails.com/2013/06/21/processos-metodologias-e-o-cerebro-humano)
[…] Outro fato é que nosso cérebro foi feito — ou melhor dizendo, evoluiu — para aprender. Aprendemos com tentativa e erro. Aprendemos observando e inferindo padrões. As emoções fortemente influenciam nossas decisões. E isso não é ruim. Quando aprendemos algum padrão, dopamina é liberada no cérebro, criando uma sensação de prazer. Gostamos de descobrir o padrão das coisas, tentar prever eventos futuros.
Em um experimento com macacos, onde tocamos um sino e depois damos uma banana, o macaco aprende o padrão “depois do sino vem a banana”. Ele aprende isso e podemos medir a dopamina sendo liberada já quando o sino é tocado, porque o macaco aprende a prever esse acontecimento. Se acendermos uma luz, tocarmos o sino e depois dermos a banana, o macaco aprende que o evento “luz” dá sequência ao sino e depois à banana. Isso pode ser repetido com diversas etapas e o macaco aprende o padrão. Porém, se seguirmos o padrão e a banana não vier no final, o macaco efetivamente fica triste, porque a previsão não funcionou.
Nós também funcionamos assim.
Para muitos eventos simples, com poucas variáveis, isso vai funcionar bem. Talvez por isso muitos gostem de rotina, onde os resultados são bem definidos. Nosso cérebro, no entanto, tem um defeito: na ânsia de encontrar padrões, o cérebro tentará encaixar padrões onde eles não existem. É como nascem as superstições. Antes de entendermos meteorologia, as tribos primitivas achavam que o fato “chover” estava relacionado a uma dança que eles acabaram de fazer. Portanto imaginavam que repetindo a dança choveria novamente.
Traduzi no meu outro blog um artigo da Scientific American demonstrando como somos “matematicamente ignorantes”. Tentamos achar um padrão para tudo. Um trecho que ilustra nossas superstições e explicações sobre coincidência é este:
Sempre é possível combinar dados aleatórios e encontrar alguma regularidade. Um exemplo muito bem conhecido é a comparação das coincidências nas vidas de Abraham Lincoln e John Kennedy, dois presidentes com 7 letras em seus últimos nomes, e eleitos com 100 anos de diferença, 1860 e 1960. Ambos foram assassinados numa sexta-feira na presença de suas esposas, Lincoln no teatro Ford e Kennedy num automóvel feito pela Ford. Ambos assassinos tem 3 nomes: John Wilkes Booth e Lee Harvey Oswald, com 15 letras em cada nome completo. Oswald atirou em Kennedy de um armazém e correu para um teatro, e Booth atirou em Lincoln em um teatro e correu para um tipo de armazém. Ambos os sucessores vice-presidentes eram Democratas sulistas e ex-senadores chamados Johnson (Andrew e Lyndon), com 13 letras em seus nomes e nascidos com 100 anos de diferença, 1808 e 1908.
Mas se compararmos outros atributos relevantes falhamos em encontrar coincidências. Lincoln e Kennedy nasceram e morreram em datas (dia e mês) e em estados diferentes, e nenhuma das datas é separada de 100 anos. Suas idades eram diferentes, assim como os nomes das esposas. Claro, se alguma dessas fosse correspondente estariam na lista de coincidências “misteriosas”. Para qualquer pessoa com vidas razoavelmente cheias de eventos é possível encontrar coincidências entre elas. Duas pessoas se encontrando numa festa normalmente encontram coincidências chocantes entre elas, mas o que são — aniversários, cidades natais, etc — não são previstos de antemão.
O mundo real é cheio de aleatoriedades. Não é difícil encontrar padrões nelas. Na realidade é muito fácil. No mundo real, situações complexas tem muitos aspectos aleatórios. O mundo real é muito mais aleatório do que se imagina. E nosso cérebro ainda não evoluiu o suficiente para se sentir realmente confortável num mundo totalmente aleatório.